Lara Pintassilgo, natural de Faro, personifica a paixão e a dedicação que impulsionam o futebol feminino português. Desde os seus humildes inícios no Algarve até aos palcos internacionais, a avançada tem vindo a construir uma carreira notável, marcada por desafios, superação e um amor inabalável pelo desporto.
Nesta entrevista exclusiva, Lara partilha connosco as suas memórias de infância, a influência crucial do seu pai, a experiência transformadora no Benfica, as aventuras na Arménia e na Turquia, e a resiliência face a uma lesão grave. Uma história inspiradora de uma atleta que personifica o espírito de luta e a ambição de representar Portugal ao mais alto nível.
Os Primeiros Passos no Futebol
Lara Pintassilgo recorda com carinho os seus primeiros contactos com o futebol, numa atmosfera familiar onde a paixão pela modalidade era constante. ““Sou natural de Faro, o meu pai e a minha família têm muita ligação ao futebol, especialmente o meu pai. Foi jogador e, neste momento, é treinador. Via muito futebol em casa. O nosso verão, no Algarve, era passado quase todo na praia. O meu pai jogava muito futvólei com os amigos e sempre tive muito contacto com o futebol, dentro e fora de casa. Na escola, também gostava de jogar à bola””
, recorda Lara.
O talento natural e o incentivo do pai foram determinantes para o início da sua jornada no futebol. ““O meu pai viu que até tinha jeito, porque na praia agarrava sempre numa bola, dava uns toques. Aos poucos também fui percebendo que até tinha algum jeito. O meu pai nunca insistiu que eu ou as minhas irmãs fossem alguém no futebol. Foi natural. O meu pai meteu-me numa equipa de rapazes, Montenegro, de uma zona de Faro e iniciei o futebol””
, acrescenta.
A Experiência de Jogar com Rapazes
A experiência de jogar com rapazes desde tenra idade moldou o estilo de jogo de Lara, conferindo-lhe uma vantagem física e competitiva. ““É, pá, tenho de admitir que, na altura, sim. As raparigas, nessas alturas, crescem mais que os rapazes. A nível físico notava-se mais a diferença, era mais rápida que eles, o que me ajudava imenso. A partir dos 15 já era muito difícil. Mas até aos 14 anos, sim””
, afirma.
Apesar dos desafios, Lara encarava o futebol com leveza e diversão. ““Comecei no futebol com 9/10 anos, gostava de dar o melhor nos jogos, ganhar e competir. Até aos 14/15 anos levava as coisas a sério, mas não pensava: ‘OK, tenho de jogar e de fazer isto para ser alguém no futebol.’ Só queria desfrutar do futebol e divertir-me””
, confessa.
O Apoio Crucial do Pai
O apoio do pai foi fundamental na evolução de Lara, especialmente a partir dos 15 anos, quando começou a representar a Seleção Nacional. ““Até aos meus 15 anos, nunca quis saber muito. Podia chegar a casa e dizer: ‘Olha, pai, hoje marquei cinco golos.’ E ele: ‘OK, boa, o que é que queres almoçar?’ A partir dos 15, quando também comecei a ir à Seleção Nacional, começou a estar mais em cima, também para me ajudar””
, explica Lara.
““E a partir dessa altura, sim, começou a ajudar-me. ‘Olha, em vez de fazeres isto, tens de fazer aquilo, em vez de fazeres uma rotura vem em apoio.’ Dava-me este tipo de indicações. Até hoje””
, completa.
A Mudança para o Benfica
Aos 15 anos, Lara Pintassilgo mudou-se para Lisboa para representar o Benfica, um momento que marcou o início de uma nova fase na sua vida. ““Fui quando o Benfica criou o futebol feminino. Tinha 15 anos e foi uma mudança... não digo difícil, mas foi tudo muito diferente. Fui de uma cidade, no Algarve, que não tem muitas pessoas ou muito movimento, para uma cidade grande. No futebol, adaptei-me bastante bem. O que me custou mais foi, por exemplo, ter de andar de metro, transportes de um lado para o outro. E também a parte escolar. Havia muitas pessoas que não conhecia, precisei de criar outras amizades. Mas, dentro do difícil, correu tudo bem e foi tudo natural””
, recorda.
Apesar da distância da família, Lara adaptou-se rapidamente à nova rotina. ““A minha família ficou em Faro, claro que me visitava bastantes vezes. Fui para o 10.º ano. Em Lisboa, estudava, estava nas sub-19 do Benfica, treinava-me e morava com mais duas colegas de equipa. Eram um/dois anos mais velhas, tínhamos uma tutora responsável por nós e ajudava-nos. Mas a partir dos 15 anos, desde que fui para o Benfica, comecei a morar sozinha, tive de começar a fazer as tarefas domésticas sozinhas. A minha mãe sempre nos ajudou muito em casa, mas também nos ensinou essas coisas, então foi muito natural””
, explica.
O Bicampeonato no Estádio da Luz
Lara recorda com carinho um momento especial ao serviço do clube, a conquista do bicampeonato no Estádio da Luz contra o Sporting. ““Quando ganhámos o bicampeonato no Estádio da Luz contra o Sporting. Foi incrível. Desde logo porque estávamos no Estádio da Luz. Agora é recorrente a equipa feminina jogar na Luz, mas naquela altura era mesmo só em jogos muito especiais. Aquele dia marcou-me. Até porque estava mais inserida no processo, acabei muito bem a época, estava feliz. Esse foi um dos melhores momentos que vivi no Benfica””
, afirma com entusiasmo.
A Aventura na Arménia
Após a sua passagem pelo Benfica, Lara Pintassilgo teve uma breve experiência na Arménia, no Pyunik, antes de rumar ao Besiktas, na Turquia. Sobre a mudança para a Arménia, Lara conta: ““Tive oportunidade de ir para lá jogar as pré-eliminatórias da Champions. Fui para a Arménia, um país completamente diferente de Portugal. Uma cultura completamente diferente””
.
A adaptação à cultura arménia revelou-se um desafio, especialmente no que diz respeito à gastronomia. ““O mais diferente de tudo era a comida. É que não tinha nada a ver. Não havia um arroz 'normal', europeu, isso não existia. As especiarias são completamente diferentes. Por exemplo, agora, estou aqui na Turquia e a comida é muito boa. Na Arménia, mesmo na cidade, parece que estamos num mundo paralelo. Não tem nada a ver. Foi uma experiência diferente, aproveito as coisas boas””
, revela Lara.
A Experiência na Turquia e os compatriotas
Atualmente no Besiktas, Lara já teve oportunidade de conhecer os compatriotas que também representam o clube. ““Sim, já. Às vezes temos alguns jantares com o presidente. Há pouco tempo mudou. Neste tipo de eventos temos de ir todos, equipas masculina e feminina. Falei mais com o Gedson. Mas, sim, costumamos encontrar-nos com eles, falamos um bocado, tudo tranquilo””
, conta.
A Paixão dos Dérbis em Istambul
Sobre a importância dos dérbis em Istambul, Lara revela: ““Aqui, quando se ganha esses jogos é muito importante. Somos quase obrigados a festejar. Mas a festejar como se tivéssemos vencido o campeonato. Se achava que em Portugal havia rivalidade aqui, então, é absurdo. A rivalidade é tanta que sentimos que ganhamos o campeonato por ganhar esses jogos. Honestamente, é mesmo uma euforia enorme. Para quem é ali da parte de Besiktas, zona onde moro, é uma festa. É o resto do dia e no próximo dia o pessoal com camisolas do Besiktas, só falam de Besiktas, Besiktas, Besiktas””
.
A Superação de uma Lesão Grave
Infelizmente, Lara sofreu uma lesão grave no joelho esquerdo, que a afastou dos relvados. ““A minha lesão foi complexa, porque sofri rotura do ligamento cruzado, mas também foi necessário suturar o menisco. E sofri outras roturas parciais noutros três ligamentos do joelho. Fiz aqui alguns estragos. Mas reagi muito bem à lesão. Há muitos jogadores que passam por aquela fase de não quererem acreditar que têm uma lesão que os vai deixar tanto tempo fora do contexto do futebol. Não reagi assim, também muito devido à boa fase que estava a passar na Seleção e no clube. Fiquei um bocado triste mas também reagi de uma forma positiva. Entretanto vim para a Turquia para ser operada e começar a minha reabilitação. A minha família também veio cá e ajudou-me””
, explica.
Apesar das dificuldades, Lara mantém uma atitude positiva e focada na recuperação. ““O pior foi a primeira semana depois de ser operada. Sentia-me um bocado frágil, devida a tanta medicação que dão. Agora tem sido mais tranquilo. Também já não tenho tantas dores. Claro que incomoda porque ainda não consigo andar sem muletas. Mas, tirando isso, pelo que diziam pensava que seria mais difícil. Isso também depende de cada pessoa. A nossa parte mental mexe muito com isso. Se pensarmos: ‘OK, tenho este problema, mas se fizer gelo de duas em duas horas, se tomar a medicação certa, as coisas avançam de uma maneira diferente’””
, completa.
O Perfil de Lara Pintassilgo
Lara Pintassilgo descreve-se como: ““Considero-me uma jogadora inteligente, tecnicamente boa, rápida, claro que também tenho defeitos, sou pouco agressiva””
.
A Divisão Clubística no Futebol Português
Lara acompanha também o futebol português e não esconde a sua divisão clubística quando questionada sobre o jogo entre Farense e Benfica. ““Desde muito pequenina sempre tive o meu coração dividido, então acho que seria ótimo se empatassem. Não quero escolher um lado””
, confessa.
““É mais provável, obviamente, o Benfica vencer. O Farense não está numa situação fácil, está nos últimos lugares. Mas no futebol tudo é possível, não dá para prever resultados. Em princípio o Benfica deverá ganhar o jogo””
, conclui.