Uma semana após o clássico, a “newsletter” Dragões Diário do FC Porto continua a gerar controvérsia. O texto, que disparou para vários alvos, incluindo Sporting, Frederico Varandas, Rui Borges, a Federação e os seus Conselhos, e o Benfica, teve um efeito bumerangue
, conseguindo trazer de volta ao debate as críticas que o clube portista tinha recebido. Esta situação acabou por ofuscar o que, até à véspera da Liga dos Campeões, agitava o ambiente futebolístico na terça-feira, especialmente um aguardado desafio do Benfica frente ao Real Madrid. A publicação não só reavivou a discussão sobre incidentes passados, como também, por ironia, pareceu legitimar declarações previamente agendadas pelo presidente do Sporting, Frederico Varandas.
A resposta do FC Porto, através da sua “newsletter”, foi particularmente polémica. Sobre um lance de alegada agressão de Hjulmand a Tiago Gouveia, do Aves SAD, os azuis e brancos escreveram: “Não fosse a intervenção do FC Porto, o Conselho de Disciplina preparava-se para fazer vista grossa ao lance em questão. Em abono da verdade, as imagens parecem desaparecer misteriosamente, inclusive as das revolucionárias bodycams dos árbitros — o ex-líbris da transparência, segundo o Presidente do Conselho de Arbitragem”. A missiva portista, que não é nova nas críticas ao Conselho de Disciplina, foi mais longe, ao colocar “em causa decisões dos tribunais civis” e ao referir-se ao silêncio cúmplice
dos encarnados. Esta atitude foi interpretada como uma tática antiga
, de manter uma boa relação com um dos rivais lisboetas e uma má relação com o outro, nunca com os dois ao mesmo tempo, numa aparente tentativa de procurar apoio contra o seu principal adversário. A newsletter também faz referência, de forma enigmática, a Jorge Nuno Pinto da Costa: “Jorge Nuno Pinto da Costa deixou-nos muitas lições e muitos alertas para os desafios que se avizinham. Dentro e fora do campo”. Esta citação pode ser interpretada como uma forma de André Villas-Boas, que se apresentava a romper com o passado, reclamar a herança e os métodos do antigo presidente.
Em contraste, a mesma terça-feira foi marcada por uma noite de horrores
para o Benfica na Luz. Além das confusões no túnel e da alegada intimidação a jornalistas, o pior foi, obviamente, o racismo. Embora a investigação ainda não tenha confirmado os factos entre Prestianni e Vinícius, a existência de racismo foi evidente em todo o ambiente que rodeou o caso. Esta situação, aliada a uma “desastrosa reação comunicacional do Benfica”, evidenciou a presença do racismo na sociedade portuguesa, e no futebol em particular, algo que se tem tornado mais visível com o crescimento da extrema-direita. Um comentador, ao citar um exemplo infeliz que teria ouvido numa tasca, afirmou: “Hoje em dia não se pode chamar preto a um preto, cigano a um cigano, mas pode chamar-se mulher a um homem”
. Este tipo de comentário apenas demonstra a falta de compreensão e a desatualização de alguns discursos. Como disse o professor Manuel Sérgio, e que agora se aplica a estes comentadores, “quem só sabe de futebol, não percebe nada de Futebol” e, neste caso em particular, não percebe de nada. A conjugação destes eventos na mesma semana sublinha a intensidade e as controvérsias que continuam a marcar o futebol português.