A qualificação do Torreense para a final da Taça de Portugal, 70 anos após a sua última presença, está a gerar um entusiasmo sem precedentes em Torres Vedras. O ambiente na cidade é de festa e o feito histórico do clube da II Liga, que defrontará o Sporting no Jamor a 24 de maio, é o principal tema de conversa entre a população, com o presidente da Câmara Municipal a destacar o impacto positivo para o concelho.
“Obviamente, é uma visibilidade enorme que se dá à cidade porque ir ao Jamor 70 anos depois, num jogo contra o Sporting Clube de Portugal, é algo que dificilmente vamos ver com muita frequência e, ao vermos o nome de Torres Vedras projetado a nível nacional, precisamente por este feito, é algo extraordinário para a cidade e para o nosso concelho”, afirmou Sérgio Galvão, em declarações à agência Lusa. O autarca sublinhou que a vitória, selada com os golos tardios de David Bruno, aos 85 minutos, e de Stopira, já aos 90+13, de grande penalidade, “foi importantíssima para quem acreditou neste projeto, que resulta de alguns anos de trabalho”. Este é um projeto para o qual o Município contribuiu com investimentos em obras de recuperação do estádio e nos campos relvados e sintéticos. Segundo Galvão, “a câmara vai continuar a ajudar o Torreense para que possamos ter todas as condições para que a prática desportiva possa ocorrer no nosso estádio”. Para a festa da final, o presidente da câmara está convicto de que, pela proximidade a Lisboa, “os torrienses irão e vão encher o Jamor”. O município espera preparar em conjunto com o clube a presença no encontro decisivo da “prova rainha”, estando disponível para “perceber as necessidades que possam eventualmente existir”. Galvão acrescentou que “se for permitido será, obviamente, com muito agrado que vamos participar nessa festa, nomeadamente com os nossos bombos e com tudo aquilo que é a nossa tradição”, referindo-se às marcas identitárias do Carnaval de Torres Vedras que os adeptos vão querer levar.
As emoções da qualificação ecoam também entre os mais velhos, como Vítor Mendes, antigo futebolista dos “azuis grená” e um dos melhores marcadores de sempre do Torreense. “Esta qualificação foi a maior alegria desportiva que eu tenho do Torreense”, salientou Vítor Mendes, enquanto passeava pelo Jardim da Graça. Mendes destacou que o momento se sobrepõe à histórica subida de divisão, em 1990/91. “A subida de divisão é um campeonato e o jogo de ontem [quinta-feira] é uma semifinal. É diferente, pois não contam os pontos, mas os golos. No decorrer do jogo, com todo o simbolismo e com aquela envolvência... foi uma alegria tremenda. Fiquei feliz por ver os outros felizes”, sublinhou. O antigo médio, que não se lembrava da final de 1955/56, já antecipa a emoção da presença na tribuna do Jamor. “Com esta idade já é difícil, mas creio que no Jamor, quando tocar o hino nacional, vai cair a pele”, adivinhou. Leonel Martins, residente em Torres Vedras há 35 anos, também considera a qualificação um momento marcante. “Não consegui bilhete para ir ao estádio ontem [quinta-feira], com muita pena minha, mas vi pela televisão e achei um bom jogo. Este momento está ao nível de quando subimos à I Divisão, em 1991 e é igualmente importante”, salientou o adepto, que verá os dois clubes do coração, Torreense e Sporting, enfrentarem-se. Sobre preferências, Leonel Martins foi claro: “vou bater palmas pelos dois até ficar com as mãos inchadas”, atirou, notando que “o que interessa é o ambiente de festa que se vai viver”. “E o porco assado”, brincou também, numa afirmação que mereceu a aprovação dos conterrâneos. Maria Zélia, de 80 anos, ainda se recorda da terça-feira de Carnaval [16 de fevereiro de 1999] em que o Torreense eliminou o FC Porto nas Antas. “Nessa noite nem me deitei para esperar a chegada da equipa”, lembrou, comparando o momento ao vivido após a qualificação. Questionada sobre o desfecho, deixou o resultado “nas mãos do destino”. “Sou sportinguista, mas sou de Torres Vedras. Ficarei feliz com qualquer que seja o vencedor. Aconteça o que acontecer, será bom”, antecipou, retomando depois a conversa com as três amigas para enaltecer o feito histórico do emblema do Oeste. A felicidade também se observa entre as gerações mais jovens. Sandra Martins, de 42 anos, que não conseguiu bilhete para a meia-final, não quer perder a oportunidade de ir com o pai ao Jamor. “Não ligo muito a futebol, mas este é um momento único e vou querer lá estar com o meu pai”, assumiu. Sobre a segunda mão da meia-final, Sandra Martins admitiu ter sido “sofrida”. “Ia dando-me uma coisinha má”, gracejou. Pedro Siopa, colaborador de um estabelecimento comercial, confirmou uma “disposição diferente” entre a população, com as pessoas “mais alegres”. Siopa descreveu que o momento está a ter “um impacto muito grande” na vida da cidade, perdendo a conta às vezes que já ouviu o nome do Torreense ser dito durante a manhã. O Torreense, além da final da Taça, continua a lutar pelo regresso ao escalão máximo do futebol português, ocupando atualmente a terceira posição da II Liga, em zona de play-off de subida.