Marco Leite, que foi adjunto de Jorge Costa durante 15 anos, desde os tempos em que ambos conduziram o AVS à subida de divisão na temporada 2023/24, partilhou as suas perspetivas sobre o Bicho
numa entrevista ao jornal O Jogo. A integração de Jorge Costa na estrutura do FC Porto, a convite de André Villas-Boas, era um sonho antigo do antigo capitão azul e branco. Leite recorda a ambição e a paixão que Jorge Costa sentia pelo clube, uma ligação que se manifestava em cada projeto.
“O Jorge voltou ao FC Porto da melhor maneira, com uma subida de divisão pelo AVS e a sensação de dever cumprido, mas ele queria muito ir, era o sonho dele e falava disso com alguma tristeza”
, revelou Marco Leite, que atualmente é adjunto de Miguel Moita no Marítimo. O ex-braço direito de Jorge Costa lamentou a falta de um reconhecimento em vida para o Bicho
, à semelhança do que aconteceu com outras figuras emblemáticas do clube. “Nunca foi uma pessoa que gostasse de aparecer muito, mas eu sentia que lhe podiam ter feito uma homenagem como fizeram ao Deco, por exemplo. Podia ter sido homenageado em vida, como aconteceu, e bem, com o João Pinto, recentemente, nos Dragões de Ouro. São jogadores que espelhavam aquilo que, infelizmente, o FC Porto já não consegue ter”
, apontou. Marco Leite enfatiza a importância da figura de Jorge Costa como um símbolo dos valores do FC Porto. “O Jorge foi a última grande figura desses tempos, espelhava, na perfeição, o que o FC Porto era e é. Nunca se queixava disso, mas percebia-se que, um dia, ele sonharia entrar no FC Porto. E ainda bem que esse dia veio”
, acrescentou.
A morte de Jorge Costa, a 5 de agosto de 2025, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória, teve um impacto profundo, mas Marco Leite acredita que este trágico evento tem um propósito maior
e tem vindo a influenciar positivamente a atual temporada do FC Porto sob o comando de Francesco Farioli. “Não consigo imaginar a partida dele sem um propósito. Cada um de nós encontrará o seu, e as pessoas do FC Porto uniram-se em torno da figura dele, sentem-na diariamente no campo com elas. O que temos visto é, de facto, o FC Porto. Quando não consegue ganhar de uma forma, ganha de uma forma, ganha de outra, na raça, no espírito. Sente-se que estão unidos, num espírito diferente do ano passado”
, referiu. Leite também partilhou uma confissão pessoal sobre a dificuldade de seguir a carreira sem o seu amigo e mentor. “Quando saí do Pakhtakor, do Usbequistão, ponderei mesmo mudar de carreira. Comecei a pensar muito seriamente na questão de ser adjunto de outra pessoa que não o Jorge. Foram 15 anos com uma pessoa de um carisma muito forte”
, afirmou. “Ser adjunto de outra pessoa mexeu um bocadinho comigo. Mas estou a trabalhar no Marítimo, com o Miguel Moita, uma pessoa que conheço perfeitamente e até 'andou' comigo na tuna. Estamos num grande clube, que merece estar na primeira divisão, estou a gostar muito de estar ali”
, completou. A dimensão da sua lealdade e afeto por Jorge Costa ficou bem patente quando Marco Leite, no dia da partida do amigo, já com duas propostas do estrangeiro e uma delas praticamente fechada, decidiu não seguir em frente. “No dia da partida do Jorge, falei com ele sobre isso, mas não tive coragem de ir, depois do que aconteceu. Pedi-lhes desculpa, já estava tudo preparado, mas não fui”
, confessou, demonstrando o quão profunda era a sua ligação com Jorge Costa.