Pizzi, o antigo médio recentemente retirado dos relvados, abriu o livro sobre a sua longa e vitoriosa passagem pelo Benfica em entrevista à DAZN Portugal. O jogador, que vestiu a camisola encarnada por oito temporadas, recordou como a continuidade na Luz, aliada aos sucessos, pode gerar um desgaste natural tanto no atleta quanto nos adeptos.
“É uma situação complicada. Durante muitos anos foi-me dado reconhecimento, ainda agora o meu reconhecimento perante os adeptos do Benfica é enorme, ou seja, a qualquer lado que eu vá, os adeptos do Benfica têm um carinho enorme por mim. Obviamente que há momentos das épocas e dos anos em que, se calhar, eu não fui tão reconhecido como aquilo que poderia ter sido. Nós em Portugal temos um problema muito grande, que é... esquece-se rápido. Isto é a minha opinião”, começou por explicar Pizzi, abordando a dualidade do reconhecimento no futebol português. A vivência prolongada num clube, mesmo com sucesso, pode levar a uma saturação, segundo o ex-jogador: “Eu acho que, se um jogador estiver durante muitos anos num clube, as pessoas vão-se cansando do que está ali, do que é o jogador, do que é a pessoa, e começa-se a entrar para outros patamares e para outras situações que não se deveriam entrar. Acho que aconteceu isso um bocado comigo no Benfica.”
A era do tetracampeonato, apesar de gloriosa, teve um impacto na perceção dos adeptos. “Durante muitos e muitos anos nós ganhávamos e ganhávamos bem e éramos campeões. E se calhar aquilo começou a tornar-se, para os benfiquistas e para todas as pessoas ligadas ao Benfica, uma coisa normal, porque nós ganhámos quatro campeonatos seguidos, ou seja, era normal ganharmos”, salientou Pizzi. Contudo, a ausência de vitórias muda rapidamente o cenário. “Depois, quando tu não ganhas, as pessoas começam a dizer: “Aquele já tem de ir, já tem que vir outro”. Isto começa a ser uma bola de neve e acho que aconteceram ali situações que não deveriam ter acontecido, que acabaram por culminar no que culminou. Mas, em relação aos adeptos e à estrutura do Benfica, tenho zero a dizer, porque sempre fui muito bem tratado e muito bem recebido”, assegurou.
Um dos momentos marcantes da sua carreira na Luz foi a transição de treinadores, especificamente a saída de Jorge Jesus para o Sporting e a chegada de Rui Vitória. Pizzi não escondeu o alívio sentido com essa mudança: “Quando o míster Jorge Jesus sai para o Sporting e soube que era o míster Rui Vitória que vinha para o Benfica, foi um alívio enorme para mim, porque sabia que estava ali uma pessoa que iria, sem qualquer dúvida, apostar em mim e querer tirar o melhor de mim para eu crescer e evoluir enquanto jogador”. O antigo médio traçou um perfil claro dos dois técnicos: “Estamos a falar de dois treinadores completamente distintos, neste caso o míster Jorge Jesus e o Rui Vitória. Um muito mais à base do grito e de uma paixão incrível. O outro à base da calma, de tranquilidade, do saber falar contigo, do saber levar-te para onde ele quer levar-te ou para tirar o melhor rendimento de ti. Acho que, nesse aspeto, o Vitória, quer no Paços e depois mais à frente no Benfica, foi, sem dúvida, muito importante para mim.”
Para ilustrar a personalidade de Jorge Jesus, Pizzi partilhou um episódio caricato de um jogo-treino contra o Mafra: “Tivemos um jogo-treino a meio da temporada contra o Mafra e houve um livre que foi assinalado. O míster Jorge Jesus não era o árbitro, mas era o que mandava no jogo. E o Mafra faz golo nesse livre e ele disse: “Pára, pára, espera aí. Volta a repetir. A barreira estava mal posicionada”. Disse isto já depois do golo e aquilo deu uma confusão com o Mafra, com eles a quererem quase abandonar o relvado. Estávamos ali para treinar e, obviamente, que os jogos de treino são competitivos, mas o mais importante é tu jogares e cresceres enquanto equipa. E ele então mandou repetir o livre e da segunda vez já não foi golo. E pronto. Foi uma história bonita, entre muitas e muitas outras”, concluiu, evidenciando a intensidade e peculiaridades do carismático treinador.