Racismo no futebol: Benfica, comunicação e o impacto na imagem do clube

  1. Daniel Sá: "episódio mau e instantâneo"
  2. Luís Vaz Fernandes critica postura do Benfica
  3. Portugal "muito atrasado" na reflexão colonial
  4. Benfica e Real Madrid: marcas centenárias

O episódio de alegados insultos racistas envolvendo Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni, durante a partida entre Benfica e Real Madrid, tem gerado amplo debate sobre o impacto na imagem do clube português e a sua comunicação. Daniel Sá, responsável pelo Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), contactado pela Lusa, classifica o ocorrido como um “episódio mau e instantâneo”, mas defende que a marca Benfica não sofrerá “danos significativos”.

Sá explica que “o futebol tem circuitos de grande expressividade, mas os ciclos de comunicação são muito curtos. O tema vai ser relançado, porque as equipas vão jogar outra vez na próxima semana [na quarta-feira, para a segunda mão do play-off]. Apesar de o episódio ser mau e do impacto ser negativo para todos os intervenientes, tem um impacto instantâneo que desaparece com muita rapidez na cabeça da maioria das pessoas”. O especialista em marketing desportivo ressalta a importância de se “respeitar a investigação da UEFA”, mas sublinha a solidez de marcas centenárias como o Benfica e o Real Madrid. Para ele, “o Benfica e o Real Madrid [fundado em 1902] são marcas com mais de 100 anos. A UEFA tem largas dezenas de anos [fundada em 1954] e a 'Champions' tem mais de 30 anos neste formato. Dificilmente um episódio desta natureza, por muito pouco bonito que tenha sido, causará danos significativos a uma marca com mais de 120 anos”. Sá conclui que “o Benfica e o Real Madrid são marcas integradoras, que integram as pessoas de todas as crenças, origens, cores, e diversas”. O especialista ainda destaca que os acontecimentos demonstram que “o nível de emoção” é uma característica distintiva do desporto, com reflexos tanto positivos quanto negativos. Ele argumenta que “um episódio num jogo de futebol deu literalmente a volta ao mundo. Uma grande parte do mundo, mais do que o resultado, mais do que a competição, mais do que o golo marcado, dedicou muito tempo a falar sobre o episódio. Quando alguém duvida da importância do alcance do futebol, cá está mais uma prova”.

Em contrapartida, Luís Vaz Fernandes, radicado em Inglaterra e com experiência em comunicação de ONGs antirracistas, tece críticas à postura do Benfica. Ele considera que o clube mostra “falta de compreensão do que é o racismo” ao “pôr-se ao lado de alguém que está a ser acusado de racismo”. Fernandes destaca a questão superficial, exemplificando quando o Benfica “diz que o melhor jogador de sempre no clube foi o Eusébio ou que tem jogadores negros. Parece quase aquela máxima: 'Até tenho um amigo que é negro, portanto não sou racista'. Isso mostra uma falta de compreensão do que é o racismo. E mostra falta de sensibilidade”. Em seu artigo, ele argumenta que faltou ao clube da Luz “colocar-se ao lado de um grupo” – a população portuguesa com origem africana – que ainda não tem “muito espaço” e “grande voz” no país. Neste contexto, ele aponta que “cada vez que há um caso de racismo público, é tudo muito superficial. Há uma forma de comunicar que mostra que ainda não se fez esse trabalho de compreender o passado do país, de compreender porque é importante termos em conta a experiência e as dificuldades de uma parte da população portuguesa”. Fernandes critica ainda as televisões portuguesas por darem palco a “comentadores capazes de dizerem as coisas mais bárbaras”, revelando um “racismo básico e primário”. Referindo-se à reação internacional, ele comenta que “a imprensa desportiva britânica reagiu aos comentários de José Mourinho [a sublinhar que estes episódios são frequentes com Vinícius Júnior] e dos comentadores portugueses com um olhar de certo desdém, como que a interrogar-se como é possível, em 2026, um país da Europa Ocidental permitir que as pessoas possam dizer essas coisas para milhões de telespectadores”. O comunicador enfatiza que, ao contrário da Inglaterra, Portugal mostra-se “muito atrasado” na reflexão sobre o seu legado colonial. Ele sintetiza essa visão ao afirmar que o país “ainda não fez essa reflexão. Olha ainda para si como um país de brandos costumes, como um país ainda 99% branco, quando já não o era há cinco anos e não é agora. O país ainda não se conhece muito bem”.