Augusto Inácio, ex-defesa esquerdo internacional português que representou o Sporting entre 1974 e 1982 e os levou ao título em 1999/00, analisou o momento atual dos leões, especialmente antes do confronto decisivo em Londres frente ao Arsenal. O ex-jogador expressou a sua preocupação com o desgaste físico da equipa, que se encontra a lutar em várias frentes. “Acho que não tem plantel para todas as frentes, mas um clube como o Sporting e o próprio treinador Rui Borges pensam que, estando envolvidos nessas lutas, é para ganhar. Só que estamos em abril e os atletas estão muito desgastados e a ficar já nos limites. É natural que, depois, a equipa acabe por se ressentir”
, notou Inácio à agência Lusa. Inácio sublinha que “o Sporting tem um jogo importante em Londres, mas nota-se que a equipa não está fresca e isso vai-se acumulando. Alguns atletas estão fora [por lesão] e outros andam no limite. É preocupante e, às vezes, pode pagar-se caro não ter um plantel com mais profundidade”
. Esta observação surge num momento crucial, com o Sporting a disputar a Liga dos Campeões, a I Liga e a Taça de Portugal.
Em relação ao embate anterior com o Arsenal, que os leões perderam por 1-0 em casa, Augusto Inácio teceu fortes críticas à postura dos gunners, que considera ter sido calculista. “Foi um jogo dividido e com alternâncias. Não se pode dizer que o Arsenal tenha sido uma equipa avassaladora e com grandes oportunidades. Foi calculista, cínica e jogou para o resultado da segunda mão. O Sporting também não se destapou muito, sob pena de ser surpreendido, e jogou naquela de tentar marcar um golo, mas também de não sofrer”
, analisou o antigo jogador. Inácio destacou a importância de uma abordagem mais agressiva por parte do Sporting no próximo jogo. “De cada vez que apanhar uma perda de bola do Arsenal, o Sporting não pode demorar a atacar, nem jogar para o lado ou para trás, senão dá oportunidade ao adversário para se organizar defensivamente. Já se percebeu que, quando é para defender, o Arsenal fá-lo com 11 e todos ficam atrás da linha da bola”
, reconheceu. Ele acredita que “estou convicto de que a primeira parte deste segundo jogo vai ser dentro do tom que se viu em Lisboa. Não estou a ver o Arsenal a expor-se muito, porque sabe que o Sporting é perigoso no contragolpe. Se o Sporting tiver de correr alguns riscos enquanto estiver 0-0, vai ser só no segundo tempo”
.
A gestão do plantel e as alternativas no banco de suplentes foram também pontos abordados por Augusto Inácio, que apontou a falta de opções do Sporting para refrescar a equipa, algo que o Arsenal soube aproveitar no jogo anterior. “O Sporting tinha o Souleymane Faye, mas parece que o Rui Borges não acredita muito nele para aquele tipo de jogo. Quem é que ele tinha para, pelo menos, dar mais frescura? Acho que o Sporting perde por estar mais desgastado. O adversário colocou gente de grande qualidade e fisicamente disponível e os jogadores do Sporting não tiveram reação nesse passe do Martinelli. O banco marcou a diferença a favor do Arsenal”
, admitiu. A reintegração de Morten Hjulmand, que cumpriu castigo no primeiro jogo, é vista como um fator importante, mas não decisivo, para Inácio. “É um jogador de equilíbrios e complementa-se muito bem com Hidemasa Morita, sendo mais cerebral, frio e posicional que João Simões, que não jogou mal [a titular no encontro inicial da eliminatória]. É evidente que Hjulmand faz sempre falta a qualquer equipa, mas não é por estar disponível que o Sporting passa a ter mais possibilidades de ganhar”
, terminou. Em suma, o futuro do Sporting na presente temporada, que pode ser próspero ou desolador, dependerá em grande parte da gestão da condição física dos seus atletas e da estratégia a adotar em campos adversários. “Tudo depende da ideia do treinador e da forma como quer gerir. Todos dizem que querem ganhar, mas os factos é que determinam se estão em posição de o fazer. O Sporting pode ganhar tudo, mas também pode perder. Dado o esforço físico dos jogadores e as poucas alternativas que há para rodar, eu temo que o Sporting possa não ganhar nada”
. O Sporting já igualou o seu melhor registo na Liga dos Campeões e, se passar às meias-finais, enfrentará o FC Barcelona ou o Atlético de Madrid.
Análise histórica e comparativa, Inácio recordou ainda um feito do Sporting em Inglaterra, na Taça UEFA de 1981/82, contra o Southampton. “Na véspera, estava com um pico de febre. Deram-me comprimidos e injeções e ainda baixei para os 37 graus, mas, perto do apito inicial, voltei a ter 39. Pediram-me a opinião e eu aceitei ir a jogo. Ganhámos, mas a noite foi horrível para mim, porque o corpo ressentiu-se muito”
, recordou Inácio, destacando a sua própria resiliência. Naquele jogo, Inácio teve um papel decisivo ao anular Kevin Keegan. “Apanhei pela frente o craque da seleção inglesa e, se fosse a olhar para o nome, tinha perdido os lances todos. Anulei a sua movimentação ofensiva, porque estive a marcá-lo sempre em cima até à linha de meio-campo e não o deixava virar [para a baliza do Sporting]. Eles marcaram de outra forma e não daquela em que o Kevin Keegan tivesse uma grande preponderância. Com vaidade minha, fiz um grande jogo e o Sporting também”
, enquadrou.