A violência verbal no futebol português é um problema real, mas a sua expressão é marcada por uma notória falta de qualidade. Em vez de um confronto de argumentos ou de um uso expressivo da linguagem, o que se observa é uma pobreza vocabular que descredibiliza o espetáculo. A quantidade de “literatura” num simples desacordo na lota de Matosinhos supera, segundo o autor, a totalidade de desentendimentos verbais no futebol num ano.
O vocabulário utilizado por figuras proeminentes do “foguetório nacional” é tão limitado que poderia caber, em caixa alta, na tampa de uma caixa de fósforos. Apesar desta escandalosa deficiência de talento para o “ofício do vitupério”, o fenómeno atrai milhares, talvez milhões, de aplausos. Esta constatação levanta questões sobre o que realmente motiva o interesse do público, para além do conteúdo em si.
A análise sugere que o problema central não é a violência em si, mas a sua execução de baixa qualidade. Falta criatividade, falta argumentação, falta, em suma, qualquer forma de arte na forma como a discordância é expressa. A ausência de um debate minimamente elaborado ou de um confronto verbal com algum requinte deixa um vazio, preenchido apenas pelo ruído e pela repetição de chavões.