A partida de Silvino Louro, uma figura incontornável do futebol português, ressoa com uma homenagem particular através da sua última entrevista, concedida a A BOLA. Uma conversa que, nas palavras do entrevistador, se tornou uma “casualidade feita honra que preferiria mil vezes nunca ter tido”, assemelhando-se à última entrevista de Alfredo Di Stéfano. Silvino partiu aos 67 anos, uma idade que “não é idade para morrer, mas sim para desfrutar a vida como o fazia Silvino antes da chegada da maldita doença”.
A entrevista revela um Silvino Louro a “respirar felicidade”, tendo “encontrado o amor e, por amor à sua jovem companheira, tinha-se convertido ao islamismo e procurava aprender os preceitos da sua nova religião para poder responder aos braços abertos como foi recebido na sua nova família”. O guardião expressou abertamente essa felicidade, afirmando: “Sinto-me um pouco como Muhammad Ali, haverá quem não compreenda, mas estou imensamente feliz pela decisão que tomei”. Além da vida pessoal, o futebolista também reconheceu a “satisfação que lhe dava jogar à bola com o neto mais velho”.
Apesar de estar “sem trabalho”, Silvino “negava-se a dar por terminada a sua carreira de preparador de guarda-redes”. O entrevistador notou “uma certa mágoa por já não fazer parte da equipa de Mourinho, mas da sua boca não ouvi uma única palavra em contra do que tinha sido seu chefe, bem ao contrário, não escondia o seu agradecimento pela oportunidade que lhe tinha dado de poder trabalhar com ele”. Esta amizade perseverou, com “alguma esperança tinha de que voltassem a encontrar-se, a amizade entre ambos continuava intacta e quando recentemente esteve em Madrid com o Benfica, Mourinho teve o bonito gesto de ir ao hospital dar um último abraço ao seu velho amigo”. O jornalista recorda: “Eu não tive oportunidade de o fazer, íamos falando pelo telefone, mantendo viva uma amizade nascida nos seus tempos no Real Madrid até chegar a péssima noticia do seu adeus”. A partida de Silvino Louro deixa-nos com a convicção de que “Deixa-nos um senhor do futebol e uma grande pessoa a quem o Destino castigou cedo de mais e sem o merecer. Até sempre, amigo Silvino”.
O impacto de Silvino Louro extravasa o campo, como se pode ler noutra memória: “Silvino Louro morreu. Antes dele, partiram tantos outros que, tal como o antigo guarda-redes, povoam o nosso imaginário de juventude, quando o futebol chegava, sobretudo, ao domingo nas memoráveis tardes desportivas radiofónicas.” Uma época evocada pela frase icónica “Tempo, marcador e um breve comentário”, um ritual radiofónico que marcou gerações. A passagem do tempo é um tema central: “Silvino Louro não é apenas o nome de um jogador com trajeto profissional fantástico, campeão nacional ao serviço de Benfica e FC Porto, além de internacional português. É também, para quem acompanhou a carreira dele, um lembrete de que o tempo passa por nós a uma velocidade imparável.” O legado de Silvino não se mede apenas em títulos: “Silvino Louro permanecerá na memória de quem o viu jogar e nós somos feitos dessas recordações. Talvez seja isso que realmente importa. Não os títulos, não as estatísticas, nem sequer os grandes momentos individuais no esplendor da relva.” A rádio, um veículo de emoções, é sublinhada: “Cada futebolista marcante que conviveu connosco via rádio de pilhas ou caixinha que mudou o mundo, naquela época em que um jogo transmitido na televisão era notícia, quando parte leva consigo um pouco do que já fomos.” A conclusão é um tributo pessoal e coletivo: “Eu (ou)vi jogar o Silvino. O Silvino, o Bento, o Neno, o Damas, o Zé Beto, o Lima Pereira, o José António, o Frederico, o Chalana, o Jordão, o Gomes, o Manuel Fernandes... Quem disse que o futebol não é um pedaço da nossa vida?”