No dinâmico universo do agenciamento de futebol, João Araújo, CEO da Onsoccer, partilha a sua perspetiva sobre a evolução do setor e os desafios inerentes à representação de atletas. Com uma carreira que o levou de jogador promissor a um dos nomes mais respeitados no agenciamento, Araújo, filho do fundador António Araújo, aborda a transformação do mercado, a concorrência selvagem e a filosofia que guia a Onsoccer na gestão de talentos.
A transição de jogador para agente não foi imediata, mas o conhecimento adquirido nos dez anos na formação do FC Porto e a experiência na II Liga foram cruciais. João Araújo salienta que “Aproveitei tudo aquilo que tinha aprendido durante a minha vida no futebol. Passei pela formação do FC Porto desde os seis anos e isso permitiu-me criar relações”. Esta base de contactos e experiência desportiva revelou-se um alicerce fundamental para a sua nova empreitada.
Da Formação no FC Porto à Agência de Sucesso
Apesar do sucesso atual, o caminho de João Araújo não foi isento de desafios. “Naquele momento não foi fácil. Quem joga futebol pensa que aquilo vai durar a vida inteira. E para quem é apaixonado por futebol como eu, que ainda me lembro de ver na televisão o Brasil-Itália no Mundial dos Estados Unidos, não é fácil deixar de jogar futebol. Mas com o tempo aceitei e comecei a desenvolver-me na área”, confessa João Araújo sobre o momento em que trocou as chuteiras pelo mundo dos negócios.
A Evolução Tecnológica no Agenciamento
O setor do agenciamento, ao longo dos anos, sofreu uma metamorfose profunda. Araújo testemunhou e impulsionou essa mudança, relembrando: “Há 18 anos este era um mundo ainda em desenvolvimento. Passei pelas fases todas: os vídeos em VHS, depois em DVD, Youtube, plataformas de observação como o Wyscout e por todas outras coisas que o futebol nos trouxe”. A adaptabilidade e a implementação de novas ferramentas, como as redes sociais, foram essenciais para o crescimento da Onsoccer. O reflexo visível dessa expansão é a diversidade de nacionalidades na carteira de clientes, que antes era predominantemente brasileira.
Internacionalização e Diversidade na Onsoccer
“Se eu visitasse a Onsoccer há 18 anos, quando eu entrei, só havia bandeiras brasileiras. A partir daqui começa a haver bandeiras portuguesas, croatas, senegalesas, do Canadá, de Marrocos, etc.”. Para além disso, o CEO da empresa refere a importância da comunicação: “tive um inglês básico na época e tive de me desenvolver também nessa área para o acompanhamento dos jogadores, que precisam de suporte quando chegam a uma realidade diferente”.
A Concorrência Crescente e a Agressividade do Mercado
Questionado sobre a crescente exigência do trabalho de um agente, João Araújo não hesita. “É, sem dúvida. Primeiro, porque a quantidade de agentes, empresas e de pessoas que estão envolvidas no futebol é muito superior ao que se verificava há 15 ou 20 anos. Logo aí, aumenta a concorrência”. Além disso, a presença de empresas estrangeiras com “capacidade económica muito grande” intensifica a disputa por talentos. O empresário é perentório sobre a forma de operar de algumas. “A forma como algumas empresas abordam a gestão dos jogadores é muito agressiva”.
A Filosofia da Onsoccer: Gestão e Apoio Total
Perante este cenário, a Onsoccer aposta numa abordagem diferenciada, focada na gestão e no cuidado com os atletas e suas famílias. “Temos de oferecer algo diferente no mercado do agenciamento de jogadores. E acredito que é aí que fazemos a diferença: na gestão, no cuidado e na atenção. Damos um suporte total aos jogadores e às famílias”. Esta filosofia estende-se a aspetos práticos: “Se for preciso ajudamos na parte dos vistos e entramos a 100 por cento na vida dos jogadores e das suas famílias. À nossa maneira, acho que somos diferentes naquilo que fazemos. A atenção ao cliente é chave”.
Confiança Acima dos Contratos Formais
Araújo considera que esta estratégia, ao contrário de outras, “não pode ser o nosso caminho”, o de comprar a representação. E sobre a decisão dos jogadores, “Não sinto isso. Sinto que se fizer o meu trabalho e que se a empresa estiver a fazer o que sabe que tem de fazer, não é mais fácil nem mais difícil. No final, dependemos sempre de nós. Temos de fazer tudo o que está ao nosso alcance na base de uma relação de confiança, de credibilidade do nosso trabalho e de estarmos seguros do que estamos a fazer”. “Não tenho contrato de representação com vários jogadores que já estão connosco há muitos anos”, revelou Araújo, mencionando nomes como Rafa Silva, Ivo Pinto, Ângelo Meneses e Fábio Espinho.
O Papel da Confiança e os Resultados a Longo Prazo
A relação de confiança é construída com o tempo e a presença, como exemplificado pela sua visita ao Mundial do Qatar para acompanhar jovens promessas: “Ainda há pouco tempo fui ao Mundial do Qatar, onde estiveram o Martim Chelmik e o Alex Tverdohlebov. Estivemos com eles e com as famílias lá. E as relações de confiança vão crescendo de parte a parte. O tempo é que traz essa confiança. Não é a assinatura de um contrato que faz com que todos sejamos melhores amigos a partir de agora. É o tempo, os resultados e a presença.”
O Potencial de Gonçalo Moreira e a Formação no Benfica
Sobre o jovem Gonçalo Moreira, da formação do Benfica, Araújo destaca o seu potencial, mas com cautela: “É sempre difícil fazer essa avaliação de fora. Entendo que os treinadores que trabalham diariamente com jogadores que estão ainda em processo de formação é que têm capacidade para fazer esse tipo de avaliação.” No entanto, ressalva que “O que não tenho dúvida é de que o Gonçalo é claramente diferenciado e que tem capacidade para atingir um nível muito alto.” E para isso, “Está bem acompanhado neste processo de crescimento, porque o Benfica tem grandes profissionais também no trabalho de supervisão da formação. É preciso dar tempo, claro. A época do Gonçalo está a ser muito positiva, ainda assim. Sobretudo na Youth League, onde tem estado em grande destaque, a fazer muitos golos e, aliás, a bater recordes nesta prova. Já tem 15 golos e 30 jogos nesta temporada, o que é assinalável para um médio ofensivo.”
Respeito e Pragmatismo no Agenciamento
Apesar da concorrência, Araújo acredita que ainda há espaço para o respeito dentro do seio dos agentes. “Não posso dizer que há respeito por parte de todos, nem que não há respeito por parte de ninguém. Se uma determinada empresa, como por exemplo a nossa, obtiver a informação que um determinado jogador não está satisfeito por várias razões e se soubermos que existe a possibilidade de o representar, vamos tentar. O que não vamos fazer é oferecer dinheiro para ele quebrar o contrato, entrando por caminhos que também não gostávamos que fizessem connosco.” No entanto, reconhece que a Onsoccer “Já perdemos jogadores assim”, mas também “já mantivemos jogadores a quem lhes foi oferecido muito dinheiro”. Sobre as saídas, João Araújo é pragmático: “Não seguro jogadores que estão insatisfeitos. Já assinei rescisões de jogadores que chegaram à minha beira e disseram que estavam insatisfeitos. Seguem a vida deles sem ter de me pagar qualquer indemnização.”
A Descoberta de Gvardiol e o Maior Negócio da Onsoccer
O maior negócio da Onsoccer, revela João Araújo, foi a transferência de Gvardiol para o Manchester City. A história da descoberta deste talento croata remonta a um projeto com o Soudani no Dínamo Zagreb e a contratação do gestor croata Marjan Sisis. “O Krovinovic foi o nosso primeiro cliente na Croácia. O segundo foi o Josko Gvardiol”, que tinha apenas catorze anos quando foi detetado. Araújo explica o processo de mentoria inicial: “Nessas idades o que fazemos é mais uma espécie de mentoria para ajudar, porque não podemos assinar com os atletas. O que há é investimento e suporte para fazer face a diversas dificuldades que vão surgindo”. A parceria com Marjan Sisis, que entretanto se tornou o “número 1 da Cro” no agenciamento, é um exemplo da capacidade da Onsoccer em fomentar o crescimento e a independência de seus colaboradores, mantendo uma excelente relação de trabalho.