O Boavista de 2000/2001, liderado por Petit e Jaime Pacheco, é um dos mais memoráveis campeões do futebol português. O percurso vitorioso foi recordado com carinho por Petit, o pitbull
que encarnava a alma lutadora de uma equipa histórica.
“Por aquilo que estava a acontecer e pelos jogos difíceis que tínhamos vencido antes, sentia a equipa moralizada para este último jogo e confiante de que o título não podia escapar”
, começou por contar o antigo médio-defensivo. Petit sublinhou a determinação da equipa, que culminou no único campeonato nacional do Boavista. “Era o último jogo em casa antes do dérbi com o FC Porto, a nossa oportunidade de fechar o campeonato estava ali e foi um título muito merecido.”
Esta conquista não foi um acaso, mas sim o culminar de um trabalho consistente. “Há dois ou três anos que o clube andava na frente, a procurar a sua oportunidade, e conseguiu o título com um misto de jogadores experientes, de qualidade, e muitos da formação que deram cartas. Havia uma identidade muito forte”
, acrescentou Petit, evidenciando a força e a coesão do grupo. A vitória dos axadrezados foi um dos momentos mais singulares na história do futebol português, distinguindo-se como um dos campeões mais atípicos do desporto.
O fenómeno do Boavista não é isolado no panorama europeu, havendo outros casos de campeões improváveis
. No século XXI, o Leicester City chocou o mundo ao conquistar a Premier League em 2015/2016, com 10 pontos de avanço sobre o Arsenal, desafiando todas as probabilidades das casas de apostas. Em Inglaterra, o Nottingham Forest, em 1977/1978, também protagonizou uma ascensão notável, ao ser campeão logo após subir da segunda divisão, sob a liderança de Brian Clough. Em Espanha, Betis (1934/1935), Sevilha (1945/1946) e, mais recentemente, o Deportivo da Corunha (1999/2000), onde alinhava Pedro Pauleta, destacam-se como exemplos de vitórias inesperadas. A Alemanha e a França também tiveram os seus Boavistas
. Na Serie A italiana, o Cagliari em 1969/1970, o Hellas Verona em 1984/1985 e a Sampdoria em 1990/1991, este último com nomes como Mancini e Vialli no ataque, marcaram uma era. Na Bundesliga, o Wolfsburgo de 2008/2009 e, mais atrás no tempo, o Borussia Mönchengladbach de 1969/1970, demonstram a diversidade de campeões. A liga francesa, por sua vez, apresenta uma lista extensa de vencedores inesperados, desde o Club Français em 1885/1886 até ao Montpellier de 2011/2012, com Giroud. Estes exemplos mostram que, por toda a Europa, o futebol oferece espaços para surpresas e feitos notáveis, à semelhança do que o Boavista conseguiu em Portugal.
A gestão de Jaime Pacheco foi crucial para o sucesso da equipa do Bessa. “Todos trabalhavam muito, desde o titular ao suplente, porque com o Pacheco tão depressa o titular ia para a bancada como aquele que estava na bancada saltava para titular”
, realçou Petit. O treinador exigia o máximo de todos os seus jogadores, mantendo a equipa sempre pronta e competitiva. “Ele queria o grupo sempre pronto e preparado para todos os cenários, os treinos eram de grande intensidade. Hoje fala-se de pressão alta. O Boavista já fazia isso, pressionávamos alto, éramos muito bons na marcação individual, fortes a entrar no jogo. Num instante fazíamos dois golos e geríamos o resto do tempo. O Boavista jogava mesmo muito bem.”
A confiança e a união do grupo eram tamanhas que, no jogo decisivo para o título, o ambiente era de festa antecipada. “A confiança era tanta que, na cabeça de muitos, a única questão após o jogo era saber onde íamos jantar a seguir, porque o jogo estava ganho”
, concluiu Petit, evocando a memória de uma grande família
que escreveu o seu nome na história do futebol português.