Francesco Farioli, técnico do FC Porto, desabafou à Sport TV sobre o percurso que levou a equipa à conquista do título nacional. O treinador italiano revelou que tanto ele como o clube carregavam “cicatrizes” e que essa partilha foi fundamental para o sucesso. “Todos tínhamos cicatrizes e algo a provar”, afirmou Farioli, numa clara alusão à sua própria experiência na Holanda e à época anterior menos conseguida dos Dragões. Em seguida, sublinhou a importância dessas experiências passadas: “Acho que estas cicatrizes é que criaram uma ligação muito forte entre todos.”
A emoção tomou conta do discurso do treinador, que não poupou elogios e dedicatórias. Farioli fez questão de frisar a importância de Jorge Costa, uma figura incontornável na história do FC Porto e que o técnico teve o privilégio de homenagear. “Mais cicatrizes já foram acrescentadas e que são muito maiores do que o futebol. Este título é para o Jorge Costa, acho que ele hoje esteve a ajudar-nos. O título também é para os adeptos, para o presidente, já foi campeão como treinador, então completou todo um ciclo. Cumprimentos à minha família, o apoio que me deram tem sido fantástico”, declarou o treinador, em sinal de reconhecimento. Farioli também não esqueceu os seus antigos jogadores, referindo: “O futebol dá e tira, acho que fizemos algo extraordinário no Ajax, infelizmente não acabou da maneira que queríamos. Hoje tive várias mensagens de jogadores meus da época passada, da direção e acho que um bocadinho desta conquista é para eles.”
A memória de Jorge Costa foi uma constante nas palavras de Farioli, que no Porto Canal revelou um gesto simbólico de André Villas-Boas após o falecimento do antigo capitão. Uma bola autografada pelos jogadores, com mensagem de Villas-Boas, tornou-se um símbolo da união e do compromisso da equipa. “Há uma bola que estará no museu rapidamente, no dia em que o Jorge morreu, Villas-Boas chegou com uma bola ao balneário e disse: ‘Pelo Jorge.’ É uma frase que toda a gente assinou, é o compromisso que tivemos desde o primeiro dia, passar pela tempestade, a parte mais importante foi chegar ao fim e dar este título ao Jorge”, partilhou Farioli, com a voz embargada. A família também mereceu um lugar especial nas suas dedicatórias. “Os meus dois filhos são adeptos incríveis, tocam sempre as músicas do FC Porto em casa, é especial ter essa oportunidade, num momento único, vivê-lo com a família é especial”, completou. O treinador destacou como o espírito de Jorge Costa se manteve presente ao longo da época. “A nossa força durante a época foi o Jorge. Uma das coisas que ele disse no início da época é que tínhamos uma equipa outra vez. Demos tudo o que tínhamos para vencer e em pequenas coisas deu para ver a sua presença. Os dois cortes em cima da linha são o ADN do Jorge Costa. Fisicamente não está connosco, mas está connosco em pensamento”, afirmou, referindo-se aos lances que simbolizaram a garra da equipa. Farioli confessou ainda o quanto foi difícil assimilar a dimensão da conquista: “Ainda estou a processar o que aconteceu, estava muito focado no jogo até ao último minuto. O Jorge [Costa] ajudou-nos com algumas defesas. Estou muito feliz por toda a gente. Pelo presidente, por este grupo, pelo Jorge [Costa] e por todos os adeptos, que voltam a festejar após tantos anos sem a conquista da Liga.” A decisão de aceitar o desafio no FC Porto foi, para Farioli, o passo certo. “O meu objetivo era trazer a energia certa para a equipa e conseguimos vencer. Durante a época tivemos momentos diferentes, hoje era mesmo o cruzar da meta. Estou feliz por festejar com os adeptos e não podia ser melhor. Aceitei a proposta do presidente no início da temporada, foi isso que fiz bem. Nada mudou, sou a mesma pessoa. Isto é futebol e agora a noite é de festa”, rematou. Na sala de imprensa, o treinador reforçou a sua crença na filosofia de “jogo a jogo” e a importância do momento em que percebeu a dimensão da conquista. “Quando vim, disse jogo a jogo. Parece algo repetitivo, mas é a nossa maneira. Comecei a aperceber-me dois minutos antes do final do jogo. O momento mais emocionante foi o da bandeira do Jorge [Costa]. Esta noite, senti ainda mais que o comum, com os cortes do Alan Varela e do Alberto, debaixo da sua bandeira. Não é uma coincidência. De outro lugar, ajudou-nos a cumprir o seu sonho. Foi a mensagem que me deu. Dedico a ele, à pessoa que me permitiu ser treinador do FC Porto, o presidente André Villas-Boas. Quando nos conhecemos, demorámos três minutos a conectar-nos e a ter o sentimento de que era a escolha certa. A todos os que trabalham com os jogadores, à minha família…”, concluiu, antes de ser surpreendido pelos jogadores com um banho de gelo nas celebrações, evidenciando o seu forte laço com a equipa.