Deco sobre Scolari, Mourinho e a Seleção: “O Cristiano sempre foi assim”

  1. Scolari criou ambiente favorável na Seleção.
  2. Decisão de naturalização tomada em 2003.
  3. Euro 2004: maior desilusão da carreira.
  4. Mourinho um revolucionário na época.

Deco, figura incontornável do futebol português, revelou em entrevista à Globo Esporte detalhes sobre a influência de Luiz Felipe Scolari e José Mourinho na sua carreira, bem como a sua ligação à Seleção Nacional. As suas palavras lançam luz sobre momentos cruciais do futebol português, desde a união que se forjou na Seleção até à ambição de Cristiano Ronaldo.

Sobre a passagem de Luiz Felipe Scolari pela Seleção Nacional, Deco é efusivo nos elogios. O antigo internacional português destaca a capacidade do técnico brasileiro em criar um ambiente harmonioso, superando as rivalidades clubísticas que existiam na altura. “A forma dele comunicar, de interagir com as pessoas… criou um ambiente na Seleção muito favorável. Portugal tinha muito a questão dos clubes. Lembro-me que quando cheguei a Portugal falava-se muito das rivalidades entre o FC Porto e Benfica e, às vezes, a Seleção Nacional tinha um ambiente um pouco tenso”, começou por dizer. Deco sublinha que a condição de Scolari como “uma pessoa de fora” foi determinante para pôr fim a essas tensões, permitindo que a equipa das Quinas alcançasse uma nova coesão. “Como era uma pessoa de fora, como não estava influenciado por nenhum dos lados, ele conseguiu agregar e unir. A Seleção criou uma harmonia que, talvez, nunca tivesse sido vista naquela época e acho que, além do grande treinador que foi, o grande mérito foi a capacidade de unir as pessoas”, acrescentou. Mesmo sem a conquista de títulos, a marca de Scolari foi indelével, como destaca Deco: “Luiz Felipe Scolari vai a Portugal e é adorado, as pessoas adoram-no e quem trabalhou com ele também. Mesmo não sendo campeão, deixou uma marca muito boa e a seleção portuguesa tornou-se um ambiente melhor”. A admiração por Scolari é evidente quando refere ainda que “O Felipão criou um ambiente muito favorável em Portugal. Eram jogadores do Benfica, outros do FC Porto, e a seleção tinha um ambiente um pouco tenso por conta dessa rivalidade. E o Felipão quebrou esse gelo. O grande mérito foi essa capacidade de unir e de agregar. Até hoje ele é adorado em Portugal”.

A naturalização de Deco, um tema sempre presente, foi igualmente abordada. O ex-jogador clarifica que a decisão não foi influenciada pela chegada de Scolari, mas sim um processo amadurecido ao longo do tempo. “Desde 2000 que a Federação Portuguesa de Futebol falava comigo e eu sentia-me muito bem, porque adoro Portugal. Com 18, 19 anos fui para Portugal. Mas foi um processo que foi amadurecendo, não foi uma decisão do dia para a noite. As coisas foram acontecendo, foram evoluindo… A minha ligação ao país, à seleção e às pessoas acabou por se criar. Tomei a decisão em 2003. Não teve nada a ver com o Felipão. A decisão já estava tomada. Coincidiu com a chegada do Felipão à seleção, mas a decisão de estar disponível para a seleção foi tomada em 2003”, explicou Deco, que não se arrepende da sua escolha: “Não, não passa [na cabeça] porque não existe esse tipo de... Quando eu tomei a decisão, primeiro eu estava seguro do que eu queria fazer. Pela relação que eu tenho com Portugal e com os jogadores da seleção, com a minha geração. Então, eu não fico a pensar, porque foi uma decisão que eu sentia que era o que eu tinha de fazer, porque sentia-me bem”. A respeito do Euro 2004, a perda da final em casa foi um dos momentos mais difíceis da sua carreira. “A geração era muito boa. Figo, Rui Costa, eu, o Cristiano a aparecer, Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Maniche, Pauleta. O que gerou uma euforia positiva sobre a seleção. Jogávamos em casa e, ao mesmo tempo, foi uma desilusão grande para nós. Não dá para explicar. O futebol é como é. Sofremos um golo, depois controlamos o jogo, mas não conseguimos marcar. A Grécia já tinha demonstrado no Europeu que era uma equipa difícil de sofrer golos. Foi uma alegria praticamente a competição inteira e uma desilusão. Talvez, a maior que eu tive na carreira, porque queríamos ganhar. Mas é o futebol”, desabafou. Sobre o crescimento de Cristiano Ronaldo, Deco realça a ambição e o trabalho incansável do craque português: “O Cristiano sempre foi assim. Igual ao que é hoje, na questão da ambição, do que ele aprende, de ser melhor. Isso nunca mudou. Sempre trabalhou para isso, sempre foi o que chegava mais cedo, o que trabalhava mais, o que ficava a bater livres depois de toda a gente sair. O que não queria parar de crescer e de evoluir. Acho que nunca vai parar com essa forma de ser. Não existe nenhum atleta com esta capacidade mental. Para mim, foi o tipo mais obcecado pela evolução. Essa característica fez dele um dos maiores jogadores da história”, rematou.

As memórias de Deco voltam-se também para José Mourinho, a quem atribui um papel revolucionário no futebol português. A chegada do técnico ao FC Porto foi um marco, transformando a equipa e elevando os padrões de preparação. “Quando o Mourinho chegou colocou ordem na equipa. Em termos de equilíbrio, de tudo. Foi um ano difícil [2002], mas ele recuperou a equipa. E, no ano seguinte, com dois, três, quatro jogadores que vieram, o FC Porto criou uma base que foi a que ganhou a Taça UEFA, a Champions e o resto. O Mourinho, para mim, foi um revolucionário da época. Não existiam assim tantos analistas. Hoje temos essas ferramentas de análise do adversário, tem analistas para tudo e mais alguma coisa. Conseguir ter a visão tática do que ia acontecer no jogo e preparar os jogos com tanta precisão, como Mourinho, eu nunca tinha visto”, afirmou Deco. A qualidade dos treinos e a mudança de mentalidade promovida por Mourinho foram igualmente cruciais, como sublinha Deco: “O próprio treino, a qualidade do treino era muito alta, o tipo de exercício que fazíamos era muito voltado para o jogo [seguinte]. Bebeu muito de muita gente com quem trabalhou e criou um estilo próprio. Na época, para mim, foi um revolucionário. Mudou muitos conceitos que ainda ninguém tinha visto. A de encarar... Portugal tinha sempre aquela visão de que vai às competições europeias e que não vai ganhar nada, vai chegar a um tal lugar e não vai passar dali. Em termos mentais, o Mourinho mudou esse conceito, essa forma de olhar para a competição e isso foi revolucionário.” A conquista da Liga dos Campeões em 2003/04 é descrita como inesperada e o resultado de várias circunstâncias difíceis de repetir. “Como explico a conquista da Champions League 2003/04? Inesperado, óbvio. O FC Porto não era um dos favoritos. O que eu acho é que aconteceram ali várias coisas que são difíceis de repetir. Primeiro, manter a mesma equipa que ganhou uma Taça UEFA, num clube como o FC Porto, com o mercado agressivo que existe hoje em dia... Conseguir manter essa equipa durante mais um ano não foi fácil. Eu, por exemplo, tinha propostas do Barcelona e o presidente não me deixou sair nesse ano, mas prometeu-me que me deixaria sair no ano seguinte. Então, mantivemos uma equipa com os jogadores que tínhamos: Ricardo Carvalho, eu, Maniche, Vítor Baía... o FC Porto conseguiu reforçar-se ali um bocadinho”, referiu. A integração de Carlos Alberto, um jovem talento na altura, na equipa vencedora do FC Porto, é destacada. “O que mais nos espantou na altura foi a maturidade que mostrou para a idade que tinha. Era muito forte fisicamente e não tinha medo. Nada o impressionava. O que era bom para algumas coisas e mau para outras. Mas naquela altura era algo fora do comum. Chegar a uma equipa como o FC Porto e impor-se da forma que se impôs... O Mourinho até começou a usá-lo em vários jogos como titular, ao invés de colocar outros jogadores que já estavam na equipa. Foi uma surpresa pela idade que tinha [19 anos]”, assumiu.

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