Luís Godinho, árbitro internacional, sublinha a necessidade premente de aprimorar a videoarbitragem em Portugal, visando maior eficiência e menor interrupção do jogo. “A videoarbitragem tem obrigatoriamente de ser melhorada e trabalhada para que o impacto no jogo e o produto em si sejam melhorados, em termos de tempo perdido. Todos queremos que, se algum erro acontecer, a videoarbitragem corrija. Quando o sistema chegou a Portugal, houve a perceção de que iam deixar de acontecer erros de arbitragem. Isso nunca acontecerá, há sempre várias opiniões”, frisou o árbitro. A busca por sistemas mais rápidos é uma prioridade, especialmente em lances como o fora de jogo, que atualmente causam longas paragens. “Há sistemas mais rápidos e é isso que queremos. Com um jogo parado por vários minutos, 60 mil à espera, e não podemos dizer mais do que 'esperem'... Temos de dar todos estes passos na procura de mais e melhor tecnologia, para nos podermos salvaguardar. O erro de arbitragem tem de ser diminuído ao mínimo, para ter cada vez menos impacto”, expressou o árbitro da Associação de Futebol de Évora.
Godinho partilhou uma experiência pessoal impactante da época 2020/21, envolvendo Luis Díaz e David Carmo, que demonstra as consequências severas das decisões arbitrais. O árbitro relembrou o lance onde decidiu expulsar Luís Díaz após este fraturar a perna de David Carmo. “Em 100 anos de arbitragem, ninguém tinha visto um lance destes. Nessa altura, tentei justificar a minha decisão ao 'staff' do FC Porto, numa situação para a qual nem eu estava preparado. Essa decisão valeu seis meses com polícia à porta. As decisões dos árbitros extravasam o campo. Era uma decisão de '50/50', onde cada pessoa tinha uma opinião diferente. Tive de tomar uma decisão naquele momento e as consequências pessoais foram muito graves”, vincou o árbitro internacional. Este episódio evidencia a pressão e o impacto pessoal que as decisões em campo podem ter, transcendendo as quatro linhas. A este respeito, Luís Godinho apela a uma mudança na mentalidade do futebol português, comparando-a com a forma como o futebol inglês é percebido e vendido
. “Os árbitros ingleses erram tanto ou mais do que nós. A diferença é como se vê o produto. Inglaterra vê-se como um produto de alto nível e isso tem impacto na forma como as pessoas olham para o seu futebol. Eu tenho responsabilidades, tento ser melhor e errar menos, mas não sou só eu. É uma questão de mentalidade e de trabalhar as regulamentações, para que o produto seja melhorado”, assumiu.
Paralelamente à discussão sobre a melhoria do VAR, a arbitragem portuguesa celebrou dois momentos cruciais na semana passada, que sinalizam um caminho promissor para o setor. O destaque vai para o arranque do Projeto dos Coordenadores Técnicos Distritais, uma iniciativa que visa uniformizar critérios e acompanhamento de árbitros em todo o país. A implementação desta rede, com um responsável técnico em cada um dos vinte e dois conselhos de arbitragem, representa um salto qualitativo significativo, promovendo o crescimento técnico, comportamental e humano dos árbitros. “Pela primeira vez, está implementada uma estrutura técnica local, pensada para acompanhar árbitros, ajudando-os a crescer não apenas sob o ponto de vista técnico, mas também sob o ponto de vista comportamental e humano”, refere o artigo. No mesmo dia, a entrega das insígnias FIFA a 53 árbitros internacionais marcou um recorde e um reconhecimento do mérito e do trabalho consistente da arbitragem portuguesa. Este número é “o resultado de anos de investimento e de uma cultura que valoriza cada vez mais a responsabilidade, a preparação e o desempenho”. Estes árbitros, “muitas vezes mal amados intramuros, mas crescentemente valorizados além-fronteiras”, representam a imagem do futebol português nas competições internacionais, servindo de exemplo e inspiração para as novas gerações. “Para quem está agora a começar, para quem ainda percorre os campos distritais, estes(as) árbitros(as) são referências, heróis a seguir. A prova viva de que o caminho pode ser percorrido com resiliência e ambição”, conclui a nota sobre o tema. Estes avanços demonstram um esforço conjunto para fortalecer a arbitragem desde a base até ao topo, com uma visão estratégica para o futuro, visando uma arbitragem mais forte e credível no panorama nacional e internacional.