O futebol português debate o incidente entre Gianluca Prestianni, do Benfica, e Vinicius Júnior, do Real Madrid, com o técnico do Sporting de Braga, Artur Jorge, a sublinhar a importância do respeito e a condenação do racismo. Enquanto o Benfica lida com as repercussões e as críticas à sua comunicação, o apelo por um desporto livre de preconceitos ganha força.
Em declarações na antevisão do jogo contra o Vitória de Guimarães, Artur Jorge destacou a responsabilidade de todos os envolvidos no futebol na promoção de valores positivos. Artur Jorge afirmou: “Do lado do Braga, o que posso dizer é que, como profissionais e também como cidadãos integrados numa comunidade, queremos ajudar a que um dos valores que impere no desporto e no futebol seja o respeito e não dar vida ao racismo. Como cidadãos, temos que ajudar a que estes temas não existam. Tem de haver respeito e, obviamente, sem racismo.” Esta posição reflete a crescente preocupação em erradicar atos discriminatórios do desporto. Sobre a possível proibição da FIFA de os jogadores taparem a boca, o técnico não expressou uma opinião formada, mas ressalvou a complexidade da questão. “Mas, há assuntos que queres comentar com um companheiro e não queres que as câmaras ouçam sem que tenha a ver com o adversário. São temas delicados, não é tão fácil impor leis. O que tem de imperar são os valores do desporto e da sociedade e dizer não ao racismo”, concluiu o técnico.
Entretanto, a gestão do incidente por parte do Benfica tem sido alvo de críticas. Luís Vaz Fernandes, responsável pela comunicação de ONG antirracistas, considerou que o Benfica mostrou “falta de compreensão do que é o racismo” na sua reação à acusação. “Ao pôr-se ao lado de alguém que está a ser acusado de racismo, o Benfica mostra que não está preparado para compreender ainda os debates sociais. E reflete muito o que se passa no país”, disse Vaz Fernandes, destacando a superficialidade da comunicação. “A questão superficial nota-se, por exemplo, quando o Benfica diz que o melhor jogador de sempre no clube foi o Eusébio ou que tem jogadores negros. Parece quase aquela máxima: Até tenho um amigo que é negro, portanto não sou racista. Isso mostra uma falta de compreensão do que é o racismo. E mostra falta de sensibilidade”, criticou. Daniel Sá, diretor executivo do IPAM, apontou que, embora o episódio seja “mau” e tenha um “impacto negativo”, este será “momentâneo” para a marca Benfica, devido aos “ciclos de comunicação muito curtos” no futebol. Contudo, defende que “é preciso respeitar a investigação da UEFA” e que o Benfica e o Real Madrid são “marcas integradoras, que integram as pessoas de todas as crenças, origens, cores, e diversas”.
Luís Vaz Fernandes sublinhou ainda que “Cada vez que há um caso de racismo público, é tudo muito superficial. Há uma forma de comunicar que mostra que ainda não se fez esse trabalho de compreender o passado do país, de compreender porque é importante termos em conta a experiência e as dificuldades de uma parte da população portuguesa”, o que demonstra um problema mais abrangente na forma como Portugal aborda estas questões. O Benfica já abriu um processo interno aos adeptos envolvidos, demonstrando algum reconhecimento da gravidade da situação. A contínua discussão sobre o caso sublinha a urgência de uma abordagem mais consciente e proativa por parte dos clubes e entidades desportivas no combate ao racismo.