O Boavista Futebol Clube e a sua SAD enfrentam um período de profunda turbulência, marcado por desentendimentos internos e uma grave crise financeira que se reflete diretamente no desempenho desportivo. A situação atingiu um novo pico com a decisão de um tribunal de Gaia, que ordenou o inventário de bens da SAD para um futuro leilão. Entre os ativos listados, encontram-se desde mobiliário e equipamento médico, como mesas e marquesas, a televisões da tribuna presidencial e, chocantemente, o troféu da 1.ª Liga conquistado na época 2000/01, juntamente com outras taças históricas. Estes bens estão maioritariamente localizados no Estádio do Bessa, abrangendo inclusive peças do museu do clube.
A lista de bens a leiloar não se restringe a objetos físicos; inclui também ativos intangíveis de grande valor, como o fundo do mecanismo de solidariedade da UEFA — que abrange montantes de vendas de jogadores formados no Boavista —, dinheiro de uma conta apreendida da massa insolvente e as marcas registadas do clube. Estima-se que o valor total de todos os bens inventariados ascenda a quase 1,4 milhões de euros. Este cenário de descapitalização e perda patrimonial sublinha a gravidade da crise que assola os axadrezados.
A Ruptura Entre Clube e SAD
Paralelamente à crise financeira, a relação entre o Clube e a SAD deteriorou-se significativamente. A direção do Boavista anunciou publicamente a desistência da sua equipa sénior na 1.ª Divisão da AF Porto, imputando a responsabilidade à SAD por promessas não cumpridas relativamente à resolução dos FIFA Bans
. Estes impedimentos, impostos pela FIFA, proíbem o registo de novos atletas, constituindo um entrave considerável ao desenvolvimento desportivo e à competitividade do clube.
Segundo a direção, as garantias de resolução dos FIFA Bans
foram não só ignoradas, como a situação se agravou, comprometendo de forma irreversível o projeto desportivo. A direção do Boavista critica veementemente a SAD por não apresentar um plano desportivo concreto para a época em curso, nem um plano claro para resolver os impedimentos ou para cumprir as obrigações financeiras assumidas. A diretoria afirma que não pode “continuar a pactuar com uma situação prolongada além de qualquer limite aceitável”
, declarando que a relação institucional entre as duas partes atingiu um ponto de insustentabilidade
.
A Versão da SAD do Boavista
Em resposta às acusações, a SAD do Boavista refutou as alegações, declarando que “sempre alertou para os riscos inerentes à criação de uma nova equipa”
num contexto de FIFA Bans
. A SAD lamenta que as suas propostas para unir esforços não tenham sido aceites e que a situação atual já era previsível há meses
, dada a complexidade dos desafios financeiros e regulamentares.
A SAD reafirma a sua “total disponibilidade para preservar a união e a coesão”
e o seu “empenho em resolver todas as situações pendentes”
, incluindo os impedimentos da FIFA, que considera uma prioridade absoluta
. A SAD sublinha ainda que nunca impediu qualquer deliberação do Clube, apesar de por vezes não partilhar dos mesmos objetivos da direção. Em tom crítico, a SAD acusa o Boavista FC de estar “a dividir os boavisteiros”
em momentos de grande dificuldade, uma postura que, na sua perspetiva, apenas poderá prejudicar o futuro do clube.
Impacto na Formação e Perspetivas Futuras
Os FIFA Bans
têm tido um impacto direto e profundamente prejudicial nas formações do clube. A inscrição da equipa Sub-16 foi cancelada, enquanto as equipas Sub-15 e Sub-17 operam em condições limitadas
, comprometendo o desenvolvimento dos jovens talentos. A direção do Boavista considera inaceitável e infame
que a formação, que é a base e o futuro do futebol, seja prejudicada pela “incompetência e incumprimento do futebol profissional”
.
O clube, apesar das adversidades, garante que se manterá empenhado em retomar “tão cedo quanto possível”
a atividade da equipa sénior de futebol, com o objetivo de regressar aos níveis elevados do futebol português e europeu. Contudo, os sucessivos problemas financeiros e a discórdia na estrutura do Boavista lançam sérias dúvidas sobre o futuro de um dos clubes mais históricos de Portugal. A constante troca de acusações entre o Clube e a SAD, aliada à crise financeira e aos impedimentos da FIFA, cria um cenário de incerteza crescente que se agrava a cada dia que passa, deixando os adeptos apreensivos quanto ao destino do seu emblema.