Depois de uma temporada com contornos inesperados, o Benfica encontra-se novamente no centro das atenções, não só pelos seus resultados em campo, mas também pela saída de José Mourinho. Este desfecho, que ecoa a sua primeira passagem pelo clube, levanta questões sobre a estabilidade desportiva e a gestão interna, especialmente à luz das declarações do próprio treinador e das análises à situação. A biografia de José Mourinho é riquíssima, mas há sempre espaço para novos registos, e seguramente que numa futura revisitação e republicação da carreira do treinador nascido em Setúbal, o Benfica irá ocupar mais um capítulo opaco e cheio de interrogações. O Benfica foi o único clube com duas passagens curtas de Mourinho, saídas fora de tempo e que criaram, porventura, entre os seus adeptos, aquela pergunta típica: “o que poderia ter sido se ele tivesse continuado”?
José Mourinho confirmou nesta sexta-feira ter recebido uma proposta de renovação do contrato com o Benfica, assumindo que ainda “não a quis ver”. O treinador do clube da Luz diz que só a vai analisar a partir de domingo, após o último jogo da temporada, adiantando que “a proposta [de renovação com o Benfica] foi entregue ao meu empresário, proposta que eu não quis ver, que eu não quis saber, que não quis analisar e que só vou fazê-lo a partir de domingo”. Esta postura reflete uma decisão ponderada que, no entanto, coloca o Benfica numa posição de incerteza poucos dias antes do final da época. Relativamente ao Real Madrid, Mourinho disse: “no domingo começo a pensar nisso”. Dizendo ainda não ver “preocupações” relativamente à sua situação pessoal, Mourinho adiantou: “O Benfica é muito maior do que eu, não há comparação possível. É maior do que todos, qualquer treinador, jogador, presidente, qualquer um”. Esta declaração sublinha a sua perspetiva de que a instituição está acima de qualquer indivíduo.
A crise do Real Madrid acabou por ajudar à narrativa. Se nada de anormal ocorrer, José Mourinho será o próximo treinador dos merengues e protagonista, ainda que de forma indireta, nas eleições de dois grandes clubes num curto espaço de tempo: no Benfica foi uma cartada para Rui Costa; na capital espanhola, traz consigo a promessa de alguém que vai organizar a casa (outra vez) e ajudar o amigo e candidato Florentino Pérez, que, apesar de usar argumentos errados na recente e famosa conferência de imprensa, teve no entanto o mérito de abafar a crise no clube e mostrar que ainda tem o perfeito domínio do jogo, tanto no discurso público como no caudal informativo que aponta, de forma inequívoca, para o regresso do treinador português a Chamartín – notícias nunca desmentidas, bem pelo contrário; só os mais ingénuos acreditam que tudo isto não passa de especulação. Rui Costa prepara-se para conhecer o seu sexto treinador em cinco anos, depois de Jorge Jesus, Nélson Veríssimo, Roger Schmidt, Bruno Lage e José Mourinho. Nenhum projeto desportivo sobrevive a tanta instabilidade, e o dinheiro de helicóptero já provou não ser a solução.