A discussão sobre a saúde mental no futebol ganha cada vez mais destaque, com Ricardo Lemos a questionar durante o programa “O Lado Direito do Mister”, de A BOLA: “As pessoas estão preparadas para ver um jogador chorar?” Esta questão surge num contexto onde um número crescente de futebolistas expõe publicamente os seus desafios pessoais e problemas de saúde mental, desmistificando a imagem de invulnerabilidade muitas vezes associada a estes atletas. É um erro recorrente associarmos saúde mental a sucesso profissional e/ou financeiro, a estatuto ou privilégios, como frisado na análise do tema. O sofrimento, afinal, é profundamente democrático e não escolhe estatuto social ou profissional.
Exemplos recentes como o de Luís Suárez, que revelou não ver as filhas há mais de dois anos devido a um litígio familiar, e Sudakov, que admitiu não estar totalmente focado no Benfica devido a questões pessoais, sublinham a urgência deste debate. Tradicionalmente, esperava-se que os jogadores fossem figuras intocáveis, mas a realidade mostra que a depressão e outras fragilidades também entram em campo. “Quem tem um ‘porquê’ suporta quase qualquer ‘como’”, escreveu Viktor Frankl, uma citação que se alinha com a ideia de que a resiliência não advém da ausência de dor, mas da capacidade de encontrar um propósito maior para a superar. A coragem e a resiliência vêm do sentido que damos às coisas pelas quais temos de atravessar; vêm da forma como valorizamos e quanto queremos a luz ao fundo do túnel.
A vulnerabilidade destes atletas não diminui a sua grandeza; pelo contrário, acrescenta-lhes humanidade, transformando-os em exemplos de superação. Olho para estes e muitos outros jogadores com muito respeito. A vulnerabilidade não lhes retira dimensão; acrescenta-lhes humanidade. Há uma forma de heroísmo que só existe depois da queda. A grandeza não é propriedade dos invencíveis. O verdadeiro heroísmo reside, então, na capacidade de se reerguer e continuar a lutar, inspirando outros a fazer o mesmo. Porque o verdadeiro exemplo não está na ausência de dor, mas na coragem silenciosa de continuar apesar dela. É aí que nasce a admiração genuína: não no talento, não no sucesso, mas na recusa que os medos e as fraquezas ditem destinos, cavando sepulturas de corpos ainda vivos.