Mário Zambujal: paixão pelo futebol, Benfica e a arte de contar histórias

  1. Mário Zambujal celebrou 80 anos em 2016.
  2. O Sporting-Benfica de 2016 coincidiu com o seu aniversário.
  3. Mário Zambujal é sócio fundador do Benfica.
  4. Foi o primeiro rosto do desporto na RTP após 25 de Abril.

Mário Zambujal, uma figura multifacetada e apaixonante da cultura portuguesa, partilhou em entrevista a sua profunda ligação ao futebol, particularmente ao Benfica, no dia em que celebrou 80 anos em 2016. Uma casualidade feliz agendou o Sporting-Benfica de 2016 para o dia do seu octogésimo aniversário, proporcionando um pretexto para o Maisfutebol revisitar a vida deste carismático contador de histórias. Zambujal, que se descreve como um amante da noite, das mulheres e da beleza, vê no futebol uma estética particular, uma forma de arte. “O futebol tem estética. Há lances de futebol de puro bailado. Aliás, é um jogo muito bem imaginado”, afirmou, citando o seu primeiro chefe, Vítor Santos, de A Bola, que dizia: “o futebol é um desporto jogado com a parte inábil do corpo humano: os pés, a cabeça, os joelhos, todas as partes em que o ser humano não tem habilidade. Por isso também é tão belo.”

A paixão de Mário Zambujal pelo Benfica transcende o simples gosto pelo desporto, sendo uma herança familiar e um sentimento de pertença. “Gosto muito de futebol. Do Benfica gosto enquanto herança familiar, enquanto sentimento de pertença a um grupo. O futebol é a parte mais visível, espetacular e apaixonante desse Benfica. Mas não deixaria de ser benfiquista se não houvesse futebol, nem deixaria de gostar de futebol se não houvesse Benfica”, confessou. Esta ligação enraizada foi transmitida pelo seu pai, uma tradição que Zambujal valoriza profundamente. “Tenho amigos que são benfiquistas e os filhos sportinguistas, ou vice-versa, mas para mim isso são modernidades. À antiga, o pai tinha o cuidado de instilar no filho, logo de pequenino, a paixão e o gozo de pertencer a um clube. Aquilo era parte da família”, recordou. Apesar das alegrias, o Benfica também lhe trouxe desilusões, mas Zambujal demonstra uma filosofia desportiva madura: “Não sou do género de adepto que fica amargurado quando o clube perde. Fica-se chateado um quarto de hora, claro que sim. Tenho uma neta de 20 anos que é uma benfiquista fervorosa e digo-lhe: a vida é a vida e a gente saboreia esta coisa que é o futebol. Com alegrias e desilusões, mas... eh pá, não passa disso.” Questionado sobre se ainda vai ao estádio, Zambujal, que é sócio fundador do Benfica e tem lugar anual, revelou: “Sou sócio fundador, tenho lugar anual e a minha casa está à distância de ir a pé ao Estádio da Luz, mas raramente vou. Até é a minha neta que utiliza mais o cartão. Se me chateio com um jogo e estou em casa, vou fazer outra coisa. No estádio não.”

Apesar da sua pouca frequência no estádio, Mário Zambujal reconhece o valor da experiência presencial. “De vez em quando sinto, sim. E nessas alturas vou. Geralmente vou muito cedo, passeio pelo estádio, olho para as pessoas, sinto o início da festa. Gosto disso. Ver um jogo no estádio é insubstituível. Mas hoje vejo mais o futebol na televisão, confesso”, disse. Além do campeonato português, o jornalista acompanha com entusiasmo a liga inglesa, que considera um modelo de jogo limpo e nobre. “Vejo o campeonato português e vejo muito o campeonato inglês. Aí é que me entusiasmo, como apaixonado pelo futebol. Gosto muito da liga inglesa. São combates duros, limpos, nobres. É raro ver um jogador a atirar-se ao chão. Foram os gajos que inventaram o jogo e têm um grande respeito por ele.” A sua própria experiência como jogador, embora breve, também é motivo de riso. “Eu fui. Fui capitão da equipa de juniores do Sporting Lisboa e Faro, que era a filial número um do Benfica. O clube tinha os melhores bailes do Algarve.” Contudo, a sua carreira foi condicionada pelas noites algarvias e um pé esquerdo teimoso. “Eu percebi duramente como as noites de sábado são demasiado próximas das manhãs de domingo. Por isso ficávamos todos rotos para os jogos, que eram ao domingo de manhã”, e “o treinador obrigava-me a treinar com uma sapatilha no pé direito e uma chuteira no pé esquerdo, para eu tratar a bola com o pé esquerdo. Ó pá, ia de sapatilha, ia de tudo, o pé esquerdo é que nada.”

Mário Zambujal, que se considera mais um “contador de histórias” do que um analista de jogo, lamenta a evolução tática do futebol moderno, que, no seu entender, sufoca a criatividade. “Nunca fui um analista do jogo. Fui um contador de histórias. Agora às vezes ouço falar de losangos invertidos e digo logo: eh lá, isto é de mais para mim. Há tempos num debate com o José Peseiro até disse que estavam a matar o futebol. Antigamente havia uma coisa fundamental que é o espaço. Depois foram ao basquete buscar o pressing, agora há pressing em todo o terreno, tiraram o espaço aos artistas e isto está a matar o jogo”, defendeu. Crítico da lógica de mercado que investe fortunas em jogadores que depois não jogam, Zambujal expressou a sua preocupação: “Custa-me ver jogadores fabulosos, comprados a peso de ouro para marcar golos, que depois não jogam porque o jogo está feito maioritariamente para não sofrer golos. Isto é uma crueldade para o futebol.” Para ele, Eusébio continua a ser o maior craque da sua vida, embora reconheça a genialidade de outros grandes jogadores. “Diria que foi o Eusébio. Mas não esqueço o Matateu, o Travassos, o Carlos Duarte, do FC Porto, enfim, houve grandes jogadores. Mas se tivesse de escolher um, pela excecionalidade, o Eusébio. Digo mais: se o Eusébio jogasse hoje continuaria a ser um estrondoso jogador. Tal como o Simões, o Zé Augusto, o Vasques, o Travassos ou o Hernâni, do FC Porto. Mas talvez ganhassem menos lances. Olha-se para o Gaitán, e ele tem pés de ouro. Faz coisas extraordinárias. Mas a malha está mais apertada e por isso é um jogador menos perfeito.”

O jornalista também abordou a questão da “cor” do futebol, sentindo que os tempos atuais são menos vibrantes, apesar de reconhecer que o catenaccio também existia no passado. “Antigamente também havia o catenaccio. Também havia o Benfica de Riera, que era um grande amigo meu, com quem passei muitas noites a beber copos, mas que era um treinador que tinha uma ideia clara: a bola era a arma do jogo. Por isso tinha uma obsessão de jogar para o lado e para trás, fazer tudo para não perder a bola. Mas regra geral havia mais espaço, havia mais espetáculo, o futebol era mais colorido”, lamentou. Na sua visão, o jornalismo desportivo também mudou e nem sempre para melhor. “A vida hoje é muito diferente. A vida é muito mais comercial. Por exemplo, não tenho pachorra para ver os programas de televisão que tem um tipo do Benfica, um do Sporting e um do FC Porto a discutir arbitragens. Não consigo ver. É preciso gostar do futebol com todas as suas imperfeições e ter educação desportiva”, afirmou. Zambujal critica a falta de frontalidade e a insinuação que, a seu ver, marcam o jornalismo atual. “O que hoje há mais, e é grave, é a insinuação. É dizer uma coisa, sem o dizer, é atirar uma coisa para o ar e depois esconder-se. Ah, e tal, não foi isso que disse. Essa falta de frontalidade é terrível.” A sua entrada acidental no jornalismo e na televisão, designadamente como o primeiro rosto do desporto da RTP no pós-25 de Abril, com o programa Grande Encontro, é outra das suas histórias marcantes. “Terrível, terrível. Às tantas havia uma prova de atletismo no Estádio Nacional e tínhamos de ir em direto para acompanhar as duas últimas voltas do Carlos Lopes. Atrapalhei-me tanto que quando fomos em direto já o homem tinha tomado banho, ou caraças. Saí do estúdio a dizer que não voltava, mas depois pensei: se sair agora, saio derrotado. Só saio quando estiver a ganhar, ou pelo menos empatado.”

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