Após a eliminação da Liga dos Campeões e a crescente especulação sobre o seu futuro, José Mourinho, treinador do Benfica, veio a público clarificar a sua posição. Em declarações, Mourinho foi enfático quanto à sua vontade de permanecer no clube da Luz, desmentindo categoricamente os rumores de uma possível saída e defendendo as suas decisões e a postura do plantel face aos desafios recentes.
Abordando a questão da sua cláusula de rescisão, o técnico explicou a sua natureza e propósito. “Tem de perguntar ao presidente Rui Costa, não a mim. A cláusula é simplesmente uma de facilidade de separação, seja para o lado do Benfica ou para o meu. É uma cláusula fácil, não uma que hipoteque economicamente a situação dos clubes, como acontece muitas vezes. Na altura chamei-a de cláusula de ética e respeito para com os candidatos à presidência do Benfica, neste momento chamar-lhe-ia cláusula da facilidade. É fácil para mim e para o Benfica decidir”, afirmou Mourinho. Em relação à sua motivação, Mourinho sublinhou o controlo que tem sobre a sua própria vontade: “Há uma coisa que controlo, que é a minha vontade e as minhas motivações. Vocês são, penso eu, todos profissionais de nível, de qualidade, mas às vezes parece que deixam passar entre os dedos alguns sinais de coisas importantes que poderiam ler e tirar as devidas conclusões. Quando, depois do problema dos jogos com o Real Madrid, se agarraram a dizer que eu tinha perdido uma grande oportunidade para voltar ao Real Madrid, nesta sala, um dia antes de termos jogado o primeiro jogo com o Real Madrid, perguntaram-me se se poderia dizer não ao presidente Florentino Pérez, e a minha resposta foi: “Sim, pode-se”. Acha que diria isso se quisesse sair do Benfica para ir para o Real Madrid? Tenho muitos defeitos, mas acha que sou estúpido? Fui muito objetivo, vocês ou não a quiseram apanhar ou não era do vosso interesse fazê-lo. Fui eu que disse que não queria ir e, entre as linhas, que queria ficar”. O técnico reiterou, de forma veemente, o seu compromisso com o clube: “Agora, quero ficar com um campeonato que seja um único campeonato, e não dois. Porque jogar ao mesmo tempo o campeonato real e o virtual, não gosto. Gosto de jogar só um. Quero ficar, respeitar o meu contrato com o Benfica. E se o quiser renovar por mais anos, também o assino sem discutir uma única vírgula”.
Mourinho não se alongou apenas sobre o seu futuro, mas também se defendeu das críticas relativas à eliminação da Champions League, nomeadamente sobre o desempenho da equipa e a sua ausência na lateral nos jogos cruciais. “Acho que seria mais, não diria ético ou lógico, mas justo que direcionássemos as coisas noutro sentido, que é: como é possível, o que foi feito, que crédito é que vocês têm para esta equipa, em alguns meses, passar de ser humilhada em casa contra o Qarabag a ter três jogos contra o Real Madrid da maneira como jogou, de ter saído da competição do modo como saiu”, defendeu o treinador. Questionado sobre a troca de camisolas entre Sidny e Vinícius e a sua ausência do banco, Mourinho fez questão de contextualizar a sua perspetiva. “A questão da camisola não acho criticável, acho que seria evitável. Não é criticável porque é uma prática normal e corrente em jogos grandes os jogadores trocarem as camisolas; natural que tentem fazê-lo com jogadores com os quais se identificam, ou dos quais já foram companheiros, ou admiram por serem de nível estratosférico. Não vejo que seja criticável, simplesmente evitável em função do que aconteceu durante a semana”. Sobre a sua ausência no banco, o técnico esclareceu que é uma questão de princípio. “Por que não estive? Por que não estive todas as vezes em que estive castigado? Porque é um princípio que é meu, que podem respeitar ou não, mas é meu. Estás impedido de ir ao balneário, de comunicar diretamente com os teus jogadores, não vejo razão para ir falar a uma conferência de Imprensa. O João Tralhão é um treinador como eu, com formação, experiência, muito representativo daquilo que é o Benfica, tanto ele como qualquer um dos meus assistentes, uma palavra dele é uma palavra minha, não vi absolutamente motivo nenhum para que não me fizesse representar pelo João”. Finalmente, Mourinho repudiou veementemente qualquer discriminação. “Depois de um Tsunami de críticas, esperava que alguém me desse oportunidade de responder, mas parece que não e tenho de ser eu a antecipar-me... Queria, de um modo muito objetivo e sintético, dizer que eu, enquanto cidadão e treinador, repudio veemente qualquer tipo de discriminação, de preconceito e ignorância. Ponto final, parágrafo. Aconselho, também veemente, algumas pessoas a perderem cinco minutinhos para lerem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que são só trinta pontos, mas há ali um ou dois que me parecem fundamentais. E a terceira coisa que queria dizer é que as críticas refletem mais os críticos do que aquele que foi criticado”.
No que toca aos casos específicos de Prestianni e Vinícius, Mourinho manteve a sua posição. “Eu amo o Álvaro e vou continuar a amar, mas continuo a achar que quem tomou a posição correta fui eu. E não ele. Mencionei isso na conferência de Imprensa quando fui confrontado com as declarações do Álvaro e de um jogador, na acusação a Prestianni e de defesa ao jogador do Real. Disse que se alguém não está a entender...”. O treinador abordou a gestão do plantel, agora focado numa única competição, e a lesão de Sudakov. “Sudakov estava lesionado para Madrid. Não jogou com o Aves SAD, hoje está fora dos convocados. Foi para Madrid por uma razão muito simples: no campeonato só se podem ter nove jogadores no banco, nas competições europeias podemos ter 12, o que nos abre um bocadinho mais o espaço para levarmos alguns que em condições normais não seriam convocados; por exemplo, em Madrid estiveram no banco dois guarda-redes, o Samuel Soares e o Diogo Ferreira, quando obviamente no campeonato não há espaço para dois”. O técnico frisou ainda a ausência de Lukebakio. “O Lukebakio, que parece que espantou muita gente o facto de não ter jogado, não é um jogador que está lesionado, mas está numa situação não fácil e, antecipando cenários para amanhã, amanhã volta a não jogar, principalmente de início. Temos dados científicos e objetivos que analisam o desempenho dele seja em treino, seja nos minutos que jogou frente ao Aves SAD e no jogo da primeira mão com o Real Madrid, e o Lukebakio só poderia ser utilizado nos últimos 10 minutos de jogo, que estávamos a prever que fossem mais cinco, seis ou sete minutos, porque houve uma lesão de um jogador do Real Madrid que se alongou muito; no caso de estarmos empatado um a um, ou estarmos a um golo de podermos prosseguirmos a nossa luta. E mesmo nesse caso ficávamos com uma dúvida, a nós, equipa técnica, que era: e se formos a prolongamento, como ele jogará 15, mais 30, que seria outro problema para nós. Há coisas internas que vocês não sabem, nem têm de saber, mas que depois é muito fácil falar e criticar”.