Fredrik Aursnes anunciou que está novamente disponível para a seleção da Noruega, gerando reacções imediatas na estrutura técnica e entre os comentadores. A notícia surge quase um ano após o médio ter decidido afastar‑se por questões pessoais e de fadiga mental, e abre um período de avaliação que será gerido pelo seleccionador Ståle Solbakken.
O processo de retoma foi descrito como gradual pela própria equipa técnica e pelo jogador, que confessou ter recuperado energias mas não garantiu a presença automática na lista para o Mundial de 2026. As palavras do treinador e do jogador permitem acompanhar, passo a passo, as razões e os critérios que conduziram a esta disponibilidade.
O primeiro contacto
Ståle Solbakken detalhou o arranque do diálogo sobre o regresso e explicou como percebeu que Aursnes ponderava voltar. “Em janeiro, liguei-lhe para saber como estava. Provavelmente, foi a primeira vez em que percebi que ele estava a pensar voltar. Depois, soube que ele tentou perceber as opções, junto do plantel, e que refletiu sobre o assunto nas últimas semanas. Ele ligou‑me e falou da decisão”
, disse o seleccionador à TV 2.
Essa chamada traduziu‑se num diálogo continuado entre jogador e equipa técnica, com conversas que ajudaram a clarificar disponibilidade e objectivos antes de qualquer tomada de decisão formal.
Reconhecimento do desgaste
Solbakken não escondeu que, na altura da desistência, tinham sido visíveis sinais de esgotamento por parte do médio: “precisava de um descanso”
, admitiu o seleccionador.
O treinador acrescentou contexto à retirada: “Quando ele desistiu, não estava mentalmente presente. Eu vi e notei isso nos últimos jogos internacionais. O ideal seria que ele tivesse desistido no verão anterior, a meio do apuramento para o Euro. Mas convenci‑o a continuar”
. Estas palavras sublinham que a decisão inicial foi compreendida e ponderada pela equipa técnica.
Dúvidas sobre a recepção do grupo
Aursnes reconheceu as inquietações pessoais quanto à reacção dos companheiros: “perguntava‑se se seria bem‑vindo nesta altura”
, disse o próprio, refletindo uma preocupação legítima sobre integração após ausência.
O jogador deixou claro que, para ele, esse era um factor decisivo: o sentimento de acolhimento no balneário e a relação com os colegas foram determinantes no processo de tomada de decisão.
Questões práticas das convocatórias
Solbakken procurou também elaborar numa questão prática que tem alimentado debate: “Para um Mundial chamamos 26 jogadores. Nas convocatórias normais, nunca chamamos mais de 25. Por isso, ele não ocupa o lugar de ninguém”
, explicou o seleccionador.
Com esta explicação, o seleccionador quis acalmar leituras simplistas sobre eventuais injustiças à conta do regresso de um jogador que esteve ausente.
Avaliação táctica
Quanto ao perfil futebolístico, Solbakken foi claro sobre as qualidades de Aursnes: “É um jogador completo. Não o vejo como lateral, mas pode atuar em todas as posições do meio‑campo”
, afirmou o treinador, destacando a versatilidade do jogador.
Esta polivalência coloca Aursnes como uma opção útil para diferentes soluções tácticas, sobretudo num plantel que valoriza mobilidade e adaptabilidade.
Disponibilidade sem garantias
O seleccionador fez questão de frisar que a disponibilidade do jogador não equivale a presença automática no torneio: “Tenho a certeza absoluta de que a maioria das pessoas vê isso de forma positiva. O Fredrik não disse que vai ao Mundial, mas sim que está à disposição se eu quiser convocá‑lo. É uma decisão minha”
, sublinhou Solbakken.
Assim, a decisão final ficará dependente de critérios de forma física, equilíbrio do grupo e das necessidades tácticas definidas pelo corpo técnico.
Adaptação ao Benfica
Do lado do jogador, Aursnes explicou que o primeiro ano no Benfica implicou um período de adaptação pouco habitual na sua carreira: “No Benfica, nunca tinha jogado tanto antes e precisei de tempo para me acostumar com o dia a dia. Agora já me adaptei e recuperei as minhas energias. E comecei a sentir falta dos encontros e jogos com a Noruega”
, contou o médio.
O próprio repetiu essa ideia ao evocar o impacto da mudança: “Era o meu primeiro ano no Benfica e muitas coisas eram novas para mim. Nunca tinha jogado tanto antes e demorei algum tempo a habituar‑me àquele ritmo de vida diário”
. A adaptação ao ritmo de clube foi, portanto, central na sua pausa.
O peso do cansaço psicológico
Aursnes descreveu de forma crua o estado mental que o conduziu ao afastamento: “Senti que não conseguia respirar. Era uma correria constante e eu não tinha um minuto de descanso. Sentia‑me mentalmente exausto”
, confessou o jogador.
Estas palavras explicam por que razão a sua retirada foi recebida com compreensão por parte da equipa técnica e demonstram a importância de gerir a carga mental num calendário exigente.
Reflexões sobre o Mundial
Sobre a oportunidade única que representa um Campeonato do Mundo, Aursnes foi franco e ponderado: “Já passei por algumas fases comigo mesmo. Um Mundial é algo grandioso. Talvez só tenha essa oporutnidade uma vez e penso que ia ficar arrependido para o resto da vida se não aproveitasse agora. Mas foi um processo gradual. Tenho muito mais energia e resistência para conseguir dar um contributo à seleção”
, afirmou.
Apesar disso, manteve a humildade quanto à certeza da sua presença: “Tenho quase a certeza de que não teria participado. Naquele momento, era absolutamente certo para mim desistir”
. O reconhecimento das dúvidas anteriores reforça a natureza evolutiva da decisão.
Humildade e respeito pelo colectivo
Aursnes declarou ainda um sentimento de justiça em relação aos que trabalharam no apuramento: “Não contribuí com nada para o apuramento. Todos os que contribuíram fizeram um trabalho fantástico. Então, estou com um mau pressentimento”
, disse o médio.
Acrescentou a ponderação sobre não perturbar a equipa: “É algo que sinto. Mas não estou a prejudicar a seleção. Nem é certo que eu consiga lá estar”
. Esta cautela demonstra preocupação com a coerência competitiva do grupo.
Diálogo decisivo e próximos passos
O jogador valorizou a relação com o seleccionador como factor decisivo para a evolução da ideia de retorno: “A ideia amadureceu. Tive muitas conversas boas com Stale Solbakken, que demonstrou grande respeito e compreensão. Isso foi importante”
, afirmou Aursnes.
Com 20 internacionalizações na carreira e ausência do jogo frente à Escócia, em novembro de 2023, Aursnes passa agora a figurar nas cogitações para os particulares de março, contra a Holanda (27) e a Suíça (31). A decisão final sobre o Mundial de 2026, contudo, caberá a Solbakken, que terá de conciliar forma física, equilíbrio do grupo e o direito à recompensa de quem contribuiu no apuramento.